Salvador, 22 de fevereiro de 2012
               
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Privatizações: o verdadeiro debate por Marcelo Zero

Mercelo_ZeroQuais os limites que a intervenção direta do Estado na economia deveria ter e qual o papel que a iniciativa privada pode desempenhar na eventual prestação de funções e serviços públicos?

A concessão de três grandes aeroportos brasileiros à iniciativa privada pelo governo Dilma vem produzindo um festival de sandices variadas. No FEBEAPÁ conservador que se seguiu ao anúncio há de tudo: críticas ao PT por ter “demonizado” o tema das privatizações em épocas eleitorais, diatribes contra a posição “ideológica” dos que se opuseram à sanha privatista de governos tucanos e afirmações bombásticas, à la Fukuyama, de que o debate sobre as privatizações está “encerrado” e que os privatistas “ganharam”.

De sua parte, o governo e o PT vêm fazendo um esforço para mostrar que há uma abissal diferença entre as privatizações realizadas na década de 90, que se caracterizaram pela transferência definitiva do patrimônio público à iniciativa privada a um preço aviltado, e a concessão feita pelo governo Dilma, sem transferência de patrimônio, por tempo limitado, com preços alentados, e cercada de cuidados administrativos, políticos e jurídicos.

Pois bem, muito embora essa distinção técnica entre privatização “estrito senso” e concessão seja tecnicamente correta e relevante, parece-nos que o debate que está pautado em todo o mundo sobre as privatizações vai muito além dessa mera questão técnica e semântica.

Na realidade, o que vem sendo debatido há algum tempo é se as privatizações feitas na esteira do predomínio recente do paradigma neoliberal produziram os efeitos desejados. Também se discute quais os limites que a intervenção direta do Estado na economia deveria ter e qual o papel que a iniciativa privada pode desempenhar na eventual prestação de funções e serviços públicos. A questão essencial, no entanto, tange à necessidade de que o Estado não perca, em nenhuma circunstância, a capacidade de implantar políticas públicas em quaisquer setores econômicos que julgar relevantes, seja para promover o desenvolvimento nacional, seja para incorporar setores excluídos aos benefícios proporcionados por serviços públicos.

A este respeito cabe assinalar, em primeiro lugar, que a iniciativa privada tem, obviamente, uma importante função em qualquer país capitalista. E o capitalismo, ao menos aparentemente, não está mais em discussão no Brasil. O que está em debate, desde o fracasso do modelo neoliberal nestas paragens e no mundo inteiro, é qual tipo de capitalismo nós queremos. Se o capitalismo selvagem, predatório, concentrador e desregulado, que levou o planeta a sua pior crise desde 1929, ou uma outra forma de capitalismo que, recuperando os princípios do “capitalismo regulado” da Era de Ouro à qual se referiu Hobsbawn, consiga tirar o mundo da crise e promover nova era de prosperidade, com sustentabilidade social e ambiental.

O debate sobre as privatizações se insere, portanto, neste debate maior. A depender das distintas diretrizes dadas por esse debate fundamental, o papel do Estado e da empresa privada no desenvolvimento e a modelagem de eventuais processos de privatização serão bem diferentes.

Em relação a isso, há, assinale-se, exemplos históricos muito contrastantes. Os mais elucidativos tangem à União Soviética é à China, economias de monopólio estatal que migraram, de diferentes modos, em tempos históricos também bastante diferenciados, para distintas “economias de mercado”.

Na antiga União Soviética, o colapso político do regime levou a um processo célere e descontrolado de transição para a “economia de mercado”. Aconselhados por economistas ocidentais e, em alguns casos, pela vodka, os dirigentes da época resolveram vender às pressas muitas empresas e abrir a economia aos investimentos e à concorrência internacional. A ideia básica era realizar uma “terapia de choque”, um “choque de gestão” que aumentasse rapidamente a eficiência econômica geral e assegurasse, por outro lado, a consolidação de um regime democrático, já que as duas coisas, “economia de mercado” e “democracia”, eram identificadas como sinônimos. Seduzidos pela miragem neoliberal, os dirigentes acreditaram que, em pouco tempo, dada a sua sólida base industrial e a aos seus vastos recursos naturais, a Rússia se tornaria uma pujante economia capitalista.

O resultado, porém, foi um completo desastre. Em apenas cinco anos (1990 até 1994), a economia russa encolheu 76%. O desemprego e a informalidade, praticamente inexistentes no período do anterior, chegaram a níveis estratosféricos e até a expectativa de vida dos habitantes encolheu drasticamente. Criou-se uma espécie de “capitalismo mafioso”, que produziu vários bilionários corruptos e uma vasta população de deserdados e perdedores. E o novo Estado, extremamente fragilizado e apoderado por interesses privados, perdeu a sua capacidade de implementar políticas públicas consistentes.

Já a China fez o oposto. Em primeiro lugar, ignorou completamente o ideário neoliberal, tão em voga na época, e resolveu construir seu próprio caminho. Cautelosamente, foi implementando aos poucos o que se chama lá de gaizhi ou “mudança do sistema”, que inclui a diversificação das formas de administração das empresas, seja pela privatização, seja pela descentralização. Em todos os casos, no entanto, houve a preocupação de manter a centralidade do Estado na gestão estratégica da economia.

Hoje em dia, a China tem três grandes tipos de empresa. Há as grandes empresas estatais, concentradas em algumas áreas chave, como sistema financeiro, energia, telecomunicações, etc. Tais empresas ditam o ritmo da acumulação na China e fazem os grandes investimentos estruturantes. Há também as empresas que se associam às empresas estrangeiras que têm tecnologia avançada, mediante joint ventures. Nesses casos, as empresas estrangeiras participam do mercado chinês tendo como contrapartida necessária a efetiva disponibilização de suas tecnologias. Esse esquema vem permitindo à China desenvolver tecnologia moderna e inovadora em vários campos importantes, como na informática e na indústria automobilística. Por último, há empresas, em geral privadas, que atuam em áreas novas, não exploradas pelo Estado.

Mas, mesmo nesse último caso, a influência do Estado é grande. E por quê? Porque na China o crédito é vastamente estatal. O Estado tem o rígido controle do sistema financeiro e do crédito, que é oferecido em condições facilitadas às empresas, desde que elas cumpram as políticas públicas. Por isso, a conservadora revista The Economist chama o capitalismo chinês de “capitalismo confinado”. No entanto, foi justamente esse capitalismo confinado que transformou, em menos de três décadas, um país agrário na segunda maior economia industrial do planeta. Deng Xiaoping, o grande artífice da abertura chinesa, dizia que não importava a cor do gato, o importante era que caçasse ratos. Pode-se acrescentar que, na China, os gatos de todas as cores caçam os ratos que o Estado quer, e na forma como o interesse publico exige.

E no Brasil? Em nosso país, assim como em boa parte da América Latina, as privatizações se deram, tal como na Rússia, no auge do predomínio do paradigma neoliberal, que exigia a imolação do Estado, a abertura incondicional das economias e, em muitos casos, a “flexibilização” de direitos trabalhistas e previdenciários. Assim, ao contrário do que se diz, as privatizações aqui nunca foram exatamente uma “questão de eficiência”, mas sim uma “questão ideológica”. Exigia-se a rápida implantação do Estado mínimo e do receituário do Consenso de Washington para impedir que o país perdesse o “trem da História”, propiciado por uma globalização irreversível e benéfica. De um modo geral, não houve planejamento adequado e nem a preocupação de manter a capacidade do Estado de implementar políticas públicas consistentes. A ordem era simplesmente vender ou conceder. E fazê-lo rápido, de modo a fazer caixa para o país endividado. A suposição ideológica do processo era a de que a iniciativa privada é sempre mais eficiente do que o Estado e, portanto, o resultado inexorável seria, em quaisquer circunstâncias, a melhoria e o barateamento dos serviços, bem como o aumento da competitividade geral da economia. Os dirigentes brasileiros e russos se aconselharam com os mesmos economistas.

Entretanto, o resultado dessas privatizações/concessões açodadas e ideológicas foi, de um modo geral, ruim. Os preços obtidos nos leilões foram normalmente baixos, como no caso da Vale, por exemplo. Houve transferência maciça de patrimônio público e, no caso específico das concessões, verificou-se, a posteriori, aumento exagerado das tarifas e baixa qualidade dos serviços prestados. O resultado mais negativo foi, contudo, a perda da capacidade do Estado brasileiro de implementar políticas públicas nos setores privatizados. Isso ficou bastante evidente, recentemente, no caso das telecomunicações, sempre mencionadas pelos defensores daquelas privatizações como um “grande êxito”. Com efeito, a implantação do Plano Nacional de Banda Larga, estratégico para o país, exigiu a recriação da Telebrás, pois as grandes empresas privadas do setor resistiam, e ainda resistem, a fazer os investimentos necessários, principalmente nas áreas mais pobres do Brasil.

Na Argentina, ocorreu a necessidade de reestatizar totalmente algumas empresas, como as Aerolíneas Argentinas, por exemplo, para poder manter os serviços funcionando, dada a administração desastrosa e irresponsável dos grupos econômicos privados que assumiram tais funções. No Brasil, a fragilização só não maior porque houve grande resistência, capitaneada, entre outros, pelo PT, à privatização do sistema financeiro e de algumas empresas estratégicas, como a Petrobras.

E é justamente por causa desses resultados, em geral negativos, apresentados pelas privatizações realizadas nos anos 90 no Brasil e na América Latina, que o processo privatista não tem uma boa imagem pública. Assim, quando os defensores daquelas privatizações acusam o PT de demonizá-las para fins eleitorais, eles estão implicitamente reconhecendo o fracasso do processo. Com efeito, se o processo das privatizações feitas no contexto ideológico-político do neoliberalismo tivesse sido verdadeiramente exitoso, com benefícios claros para a população e o país, o PT e outros partidos de esquerda não poderiam usá-lo contra seus adversários. Seria o contrário: os partidos conservadores utilizariam o exemplo “evidentemente exitoso” das privatizações contra seus adversários, inclusive o PT. Por que jamais o fizeram?

Tal fracasso não significa, é óbvio, que numa economia capitalista como a brasileira, não se possa fazer novas concessões para que a iniciativa privada atue. O PT, em suas administrações municipais e estaduais, sempre fez ou manteve concessões à iniciativa privada, como na área do transporte público, por exemplo.

Por certo, só o tempo dirá se as concessões dos três aeroportos brasileiros serão verdadeiramente exitosas e redundarão em melhores serviços e preços módicos para o consumidor. Porém, está claro que, neste caso específico, houve, ao contrário do que acontecia no passado, a preocupação de cercar-se de cautelas e de manter a estratégica capacidade do Estado implantar políticas públicas para o setor. Dessa forma, caso as empresas não deem as respostas adequadas, não temos dúvidas de que o processo será revertido, assim como não temos dúvidas também que, caso tais concessões tivessem sido feitas pelos privatistas ideológicos de antanho, não teria havido essa mesma cautela e, junto com a prudência e racionalidade, o patrimônio da Infraero teria sido devidamente vendido na “bacia das almas”.

Numa coisa as viúvas ideológicas do falido paradigma paleoliberal têm razão: o verdadeiro debate sobre as privatizações terminou. Ganharam aqueles, como o PT, que foram críticos do modelo neoliberal e das privatizações ideológicas e que sempre se bateram por um Estado forte que assegurasse, nas políticas públicas, a inclusão dos historicamente excluídos, com ou sem a participação da iniciativa privada. Já aqueles que se curvaram, por interesse ou ideologia, às exigências de um capitalismo desregulado e que fizeram o possível para reduzir politicamente o Estado, concentrar renda e inviabilizar a construção de um projeto estratégico viável para o país perderam. Perderam o debate e as eleições.

Artigo publicado originalmente em

http://brasil247.com/pt/247/

 
A Presidente por Carlos Souza

Graa_FosterConheci a Graça há uns 20 anos. Eu tinha acabado de voltar do doutorado e ela era chefe de um setor no centro de pesquisas da Petrobras.

Eu tinha tido um trabalho técnico aprovado para apresentação em um congresso no exterior. Nessa conferência a Petrobras apresentaria 6 ou 7 trabalhos. Como era comum naquela época, a Petrobras não aprovou a viagem para a conferência de vários dos autores, apenas uma vaga foi aprovada para o Centro de Pesquisas. A Graça foi a escolhida e iria apresentar seu trabalho. Os demais, como era comum acontecer, dariam “no show” no congresso.

Quando soube disso, a Maria da Graça, por conta própria, telefonou para todos os autores e se prontificou a apresentar todos os trabalhos. Com isso, acabei indo ao CENPES, o centro de pesquisas da empresa, para mostrar a ela minha apresentação e explicar um pouco do trabalho, que obviamente passava longe de sua especialidade. Ao encontrá-la, não resisti e fiz a pergunta: porque você, que poderia ir à conferência, apresentar seu artigo, e depois aproveitar o evento para conhecer outros autores e assistir a outras apresentações, está preferindo se expor, e enfrentar essa maratona para apresentar 7 trabalhos, em inglês (que não era seu forte), em áreas técnicas que não são exatamente as suas? E isso tudo por iniciativa própria, sem que ninguém sequer tenha lhe sugerido isso?

p>Sua resposta foi interessante e inusitada. Graça preferia correr os riscos de apresentar um trabalho alheio a ver a Petrobras dar um “no show” em um congresso.

Depois desse primeiro contato, passei os anos seguintes trabalhando muito próximo da Graça. Coordenei um projeto do CENPES em que 8 dos engenheiros de seu setor trabalhavam comigo. Na aprovação desse projeto conheci o hoje famoso mal humor da Graça. Ela, que nunca teve paciência para esperar, queria que o projeto fosse aprovado e tivesse ssuas atividades iniciadas o mais rápido possível. Eu porém, como futuro coordenador e observando vários aspectos técnicos e econômicos, só aceitei iniciar o projeto depois de ter todos os planos de trabalho revisados e atendendo a todos os requisitos de meu departamento. Essa demora deixou a Graça muito irritada, mais ainda ao ver que sua irritação não tinha nenhum efeito na aprovação do projeto. Quando finalmente todos os requisitos foram atendidos e o projeto deslanchou, ela veio a minha sala, na avenida Chile, e pediu desculpas reconhecendo que minha atitude visava buscar o melhor para a empresa. Essa qualidade, de reconhecer seus eventuais erros e pedir desculpas, também é bastante conhecida hoje na empresa. Somente por curiosidade, informo que esse projeto visava capacitar a empresa a perfurar poços horizontais e de longo alcance em águas profundas. Hoje a Petrobras é uma das empresas que dominam essa técnica e esse tipo de poço é o poço básico usado na produção dos grandes campos marítimos da empresa.

Depois disso ficamos amigos, trabalhamos juntos em diversas frentes, ela sempre no CENPES e eu no E&P (Exploração e Produção). Uma das últimas atividades que exercemos juntos foi sair pelo Brasil, palestrando em diversas universidades, buscando parcerias dos pesquisadores brasileiros para solucionar os diversos desafios que a Petrobras enfrentava e viria a enfrentar. A Petrobras tornava-se uma empresa gigante, o CENPES sozinho não daria conta de tudo. Precisávamos de parceiros. Palestramos e buscamos apoio desde o Sul até o Amazonas. Hoje a Petrobras tem projetos de pesquisa, sem exagero, com centenas de universidades e centros de pesquisa no Brasil e no mundo.

Depois disso, passei a ver a Graça cada vez menos. Ela começou, por mérito próprio, a exercer cargos cada vez mais altos na empresa, o que a tornava cada vez mais ocupada. Eu por meu lado, sai da Petrobras e do Brasil para ser professor em uma universidade no exterior. Mais tarde, quando retornei à indústria do petróleo, foi também no exterior,  e desde essa época nunca mais vi a Graça. Já lá se vão mais de 10 anos. Mesmo sem vê-la, e sem nenhum contato, sequer por email, ainda a considero minha grande amiga e estou orgulhoso de sua conquista.

Que momento especial passa a Petrobras. Além de uma mulher como presidente, funcionária de carreira, tem entre seus diretores um engenheiro como o Formigli, também funcionário com carreira de mais de 30 anos na empresa, trabalhador e muito competente. Temos ainda o Duque e o Zelada, ambos diretores, ambos funcionários de carreira, ambos com mais de 30 anos de trabalho na Petrobras. A eles veio agora se juntar na diretoria o José Alcides, também trabalhando na empresa há mais de 30 anos. E na Petrobras Distribuidora, temos como presidente o José Lima, meu grande amigo desde os tempos em que éramos estagiários e mais tarde jóvens engenheiros em Sergipe e posteriormente na Bahia.

Tive o prazer de conhecer todos esses engenheiros, hoje ocupantes dos mais altos cargos da empresa. Conheci-os ainda jóvens, ralando, trabalhando duro e contribuindo para formar essa Petrobras que hoje conhecemos. A Graça e o José Lima também ralaram por anos a fio antes de sequer ocupar suas primeiras, e humildes, posições de chefia. A todos conheci em algum momento de minha carreira, jogamos bola, tomamos chopp, rimos e trabalhamos juntos.

Sai do Brasil antes do primeiro governo Lula, não trabalho na Petrobras e não sei muito sobre a política brasileira. Ouço sempre falar que fulano é indicação do PMDB, que o sicrano é da quota do PT, e etc. Porém, o fato é que esses engenheiros, assim como eu, ingressaram na Petrobras ainda jovenzinhos. Passaram, como eu, num concurso nacional e aberto a todos os brasileiros. Foram bons empregados, deram sua contribuição e hoje estão na diretoria da empresa. Não os vejo nem tenho com eles tenho nenhum contato há mais de uma década, mas isso não me impede de me sentir feliz por essas conquistas. Na história da empresa não me lembro de ter visto tantos empregados de carreira, competentes e merecedores, ocupando tantos cargos na direção. Para mim é motivo de orgulho. Creio que para todos os brasileiros.

 
Amor e revolução. Entrevista com Alain Badiou por Eduardo Febbro

Alain-BadiouO amor é um tema essencial, uma experiência total. O amor está ameaçado pela sociedade contemporânea. O amor é um gesto muito forte porque significa que é preciso aceitar que a existência de outra pessoa se converta em nossa preocupação.

O filósofo francês Alain Badiou é um homem que não teme riscos: nunca renunciou a defender um conceito que muitos acreditam ter sido queimado pela história: o comunismo. Em entrevista à Carta Maior, Badiou fala da “ideia comunista” ou da “hipótese comunista”. Segundo ele, tudo o que estava na ideia comunista, sua visão igualitária do ser humano e da sociedade, merece ser resgatado em um mundo onde tudo passou a ter um valor mercantil. Pensador crítico da modernidade, Badiou define o processo político atual como uma “guerra das democracias contra os pobres”.

Alain Badiou não tem fronteiras. Este filósofo original é o pensador francês mais conhecido fora de seu país e autor de uma obra extensa e sem concessões. Filosofia, matemática, política, literatura e até o amor circulam em seu catálogo de produções e reflexões. Sua obra, de caráter multidisciplinar, traz uma crítica férrea ao que Alain Badiou chama de “materialismo democrático”, ou seja, um sistema humano onde tudo tem um valor mercantil. 

Este filósofo insubmisso é também um homem de riscos: nunca renunciou a defender um conceito que muitos acreditam ter sido queimado pela história: o comunismo. Em sua pena, Badiou fala mais da “ideia comunista” ou da “hipótese comunista” do que do sistema comunista em si. Segundo o filósofo francês, tudo o que estava na ideia comunista, sua visão igualitária do ser humano e da sociedade, merece ser resgatado.

Defensor incondicional de Marx e da ideia de uma internacionalização positiva da revolta, o horizonte de sua filosofia é polifônico: seus componente não são a exposição de um sistema fechado, mas sim um sistema metafísico exigente que inclui as teorias matemáticas modernas – Gödel – e quatro dimensões da existência: o amor, a arte, a política e a ciência. Pensador crítico da modernidade numérica, Badiou definiu os processos políticos atuais como uma “guerra das democracias contra os pobres”. 

O filósofo francês é um teórico dos processos de ruptura e não um mero panfletário. Ele convoca com método a repensar o mundo, a redefinir o papel do Estado, traça os limites da “perfeição democrática”, reinterpreta a ideia de República, reatualiza as formas possíveis e não aceitas de oposição e coloca no centro da evolução social a relegitimação das lutas sociais.

Alain Badiou propõe um princípio de ação sem o qual, sugere, nenhuma vida tem sentido: a ideia. Sem ela toda existência é vazia. Com mais de 70 anos, Badiou introduziu em sua reflexão o tema do amor em um livro brilhante e comovedor, no qual o autor de “O ser e o acontecimento” define o amor como uma categoria da verdade e o sentimento amoroso como o pacto mais elevado que os indivíduos podem firmar para viver. Sua lucidez analítica o conduz inclusive a dizer que o amor, porque grátis e total, está ameaçado pelo mundo contemporâneo.

Revoluções árabes, movimento dos indignados, mobilização crescente dos grupos que estão contra a globalização, a luta ou a oposição contra as modalidades do sistema atual se multiplicaram e sofisticaram. Analisando o que ocorreu, o que você diria hoje a todos esses rebeldes do mundo para que sua ação conduza a uma autêntica construção?

Eu diria a eles que, para mim, mais importante que a consigna da anti-globalização, a qual parece sugerir que, por meio de várias medidas, pode-se re-humanizar a situação, incluindo a re-humanização do capitalismo, é a globalização da vontade popular. Globalização quer dizer vigor internacional. Mas essa globalização internacional necessita de uma ideia positiva para uni-la e não só a ideia crítica ou a combinação de desacordos e protestos. Trata-se de um ponto muito importante. Passar da revolta à ideia é passar da negação á afirmação. Somente no plano afirmativo poderemos nos unir de forma duradoura.

Um dos princípios de sua filosofia consiste em dizer que uma vida que não está regida pelo signo da ideia não é uma vida verdadeira. Agora, como defender hoje essa ideia sob a ameaça do hiper-consumo, das falsidades e injustiças da democracia parlamentar e em um mundo onde nossa relação com o outro passa pela relação com o objeto e não com as ideias ou com os indivíduos? No mundo contemporâneo, a ideia é o produto e não a relação humana.

A verdadeira vida é uma vida que aceita estar sob o signo da ideia. Dito de outro modo, uma vida que aceita ser outra coisa do que uma vida animal. Alguns dirão que há valores transcendentes, religiosos, e que é preciso submeter o animal; outros dirão, ao contrário, que devemos nos libertar desses valores transcendentes, que Deus está morto, que viva os apetites selvagens. Mas, entre ambas, há uma solução intermediária, dialética, que consiste em dizer que, na vida, através de encontros e metamorfoses, pode haver um trajeto que nos liga à universalidade. Isso é o que eu chamo “uma vida verdadeira”, ou seja, uma vida que encontrou ao menos algumas verdades.

Chamo "ideia" esse intermediário entre as verdades universais, digamos eternas para provocar um pouco os contemporâneos, e o indivíduo. Que é então uma vida sob o signo da ideia em um mundo como este? Faz falta uma distância com a circulação geral. Mas essa distância não pode ser criada só com a vontade, faz falta algo que nos ocorra, um acontecimento que nos leve a tomar posição frente ao que se passou. Pode ser um amor, um levante político, uma decepção, enfim, muitas coisas. Aí se põe em jogo a vontade para criar um mundo novo que não estará baseado na ordem do mundo tal como é, com sua lei de circulação mercantil, mas sim em um elemento novo de minha experiência. 

O mundo moderno se caracteriza pela soberania das opiniões. E a opinião é algo contrário à ideia. A opinião não pretende ser universal, é minha opinião e vale tanto quanto a opinião de qualquer outra pessoa. A opinião se relaciona com a distribuição de objetos e a satisfação pessoal. Há um mercado das opiniões assim como há um mercado das ações financeiras. Há momentos em que uma opinião vale mais do que outra; mais tarde essa opinião quebra como um país. Estamos no regime geral do comércio da comunicação no qual a ideia não existe. Inclusive se suspeita da ideia e se dirá que ela é opressiva, totalitária, que se trata de uma alienação. E por que isso ocorre? Simplesmente porque a ideia é grátis. Ao contrário da opinião, a ideia não entra em nenhum mercado. Se defendemos nossa convicção, o fazemos com a ideia de que é universal. Essa ideia é, então, uma proposta compartilhada, não se pode colocá-la à venda no mercado. Mas como tudo o que é grátis, a ideia está sob suspeita.

Pergunta-se: qual é o valor do que é grátis? Justamente, o valor do grátis é que não tem valor no sentido das trocas. Seu valor é intrínseco. E como não se pode distinguir a ideia do preço do objeto a única existência da ideia está em um tipo de fidelidade existencial e vital para a ideia. A melhor metáfora para isso é encontrada no amor. Se queremos profundamente a alguém, esse amor não tem preço. É preciso aceitar os sofrimentos, as dificuldades, o fato de que sempre há uma tensão entre o que desejamos imediatamente e a resposta do outro. É preciso atravessar tudo isso. 

Quando estamos enamorados, trata-se de uma ideia e isso é o que garante a continuidade desse amor. Para se opor ao mundo contemporâneo pode-se atuar na política, mas estar cativado completamente por uma obra de arte ou estar profundamente enamorado é como uma rebelião secreta e pessoal contra o mundo contemporâneo. Esse é o principal problema da vida contemporânea. Estabeleceu-se um regime de existência no qual tudo deve ser transformado em produto, em mercadoria, inclusive os textos, as ideias, os pensamentos. Marx havia antecipado isso muito bem: tudo pode ser medido segundo seu valor monetário.

Você é um dos poucos filósofos que defende o que você mesmo chama “a ideia comunista”. Como é possível defender a ideia comunista quando seu conteúdo histórico foi desastroso.

Penso que o conteúdo histórico das ideias sempre pode ser declarado desastroso. Os democratas nos falam da democracia, mas se olhamos de perto a história das democracias, ela está cheia de desastres. Para tomar o exemplo mais elementar, se tomamos a Primeira Guerra Mundial, ela foi lançada por democratas, democratas alemães, ingleses e franceses. Foi um massacre inimaginável, o qual já se demonstrou esteve ligado a apetites financeiros nas colônias africanas, apetites que não diziam respeito aqueles que seriam massacrados mais tarde. Houve milhões de mortos e de sacrificados em condições espantosas e, aceite-se ou não, isso é parte da história das democracias. Se interrogamos o conjunto das experiências históricas veremos que todo o mundo tem sangue até as orelhas.

No que se refere à palavra “comunista” em si, da mesma maneira que ocorre com a palavra “democracia”, sempre se pode argumentar que ambas tem sangue até as orelhas. Mas, por acaso, é preciso sempre inventar outra palavra? Tomemos, por exemplo, o cristianismo. O cristianismo é São Francisco de Assis, a santidade verdadeira, o advento da ideia de uma verdadeira generosidade para com os pobres, a caridade, etc.,etc. Mas, do outro lado, também é a inquisição, o terror, a tortura e o suplício. Por acaso vamos dizer que é um crime alguém se chamar de cristão? Ninguém diz isso. Eu defendo uma espécie de absolvição dos vocábulos. Eles têm o sentido dado pela sequência histórica da qual falamos. 

De fato, o comunismo conheceu duas sequências histórias. A sequência histórica do século XIX, quando a palavra foi inventada e propagada para designar uma esperança histórica humana fundamental, a esperança da igualdade, da emancipação das classes oprimidas, de uma organização social igualitária e coletiva. Depois há outra sequência muito diferente onde se experimentou o comunismo, ou seja, se construiu uma forma de poder particular que buscou coletivizar a indústria e essas coisas, mas que, no final, se tornou uma forma de Estado despótico.

Eu proponho que não se sacrifique a palavra “comunismo” por causa desta segunda sequência, mas sim que ela seja resgatada com base na primeira sequência, possibilitando assim a abertura de uma terceira sequência. 

Nesta terceira sequência, a palavra “comunismo” significaria o que sempre significou: a ideia de uma organização social totalmente distinta da que conhecemos e que já sabemos que está dominada por uma oligarquia financeira e econômica absolutamente feroz e indiferente aos interesses gerais da humanidade. Eu proponho então voltar ao comunismo sob a forma da ideia comunista: a ideia comunista é a ideia da emancipação de toda a humanidade, é a ideia do internacionalismo, de uma organização econômica mobilizando diretamente os produtores e não as potências exteriores; é a ideia da igualdade entre os distintos componentes da humanidade, do fim do racismo e da segregação e também é a ideia do fim das fronteiras.

Não esqueçamos que as fronteiras são uma grande característica do mundo contemporâneo. O comunismo é tudo isso. Se alguém inventar uma palavra formidável para designar tudo isso, que não seja a palavra comunismo, eu aceito. Mas a história da política não é a história das palavras, mas sim a história dos novos significados que podem ter as palavras. Em geral se opõe a palavra “democracia” à palavra “comunismo”. Eu digo que uma palavra não é mais inocente do que a outra. Não lutemos pela inocência das palavras. Discutamos sobre o que significam e o que significa aquilo que eu digo.

Agora chegamos a Marx, ou melhor dizendo, aos dois Marx: o Marx marxista e o Marx de antes do marxismo. Qual dos dois você reivindica?

Marx e marxismo têm significados muito distintos. Marx pode significar a tentativa de uma análise científica da história humana com base nos conceitos fundamentais de classe e de luta de classe, e também a ideia de que a base das diferentes formas que a organização da humanidade adquiriu no curso da história é a organização da economia. Nesta parte da obra de Marx há coisas muito interessantes como, por exemplo, a crítica da economia política. Mas também há outro Marx que é um Marx filósofo, que vem depois de Engels e que tenta mostrar que a lei das coisas deve ser buscada nas contradições principais que podem ser percebidas dentro das coisas. É o pensamento dialético, o materialismo dialético. No concreto, há uma base material de todo pensamento e este se desenvolve através de sistemas de contradição, de negação. Este é o segundo Marx. Mas também há um terceiro Marx que é o militante político. É um Marx que, em nome da ideia comunista, indica o que fazer: é o Marx fundador da Primeira Internacional, é o Marx que escreve textos admiráveis sobre a Comuna de Paris ou sobre a luta de classes na França. 

Há pelo menos três Marx e o que mais me interessa, reconhecendo o mérito imenso de todos eles, é o Marx que tenta ligar a ideia comunista em sua pureza ideológica e filosófica às circunstâncias concretas. É o Marx que se pergunta pelo caminho para organizar as pessoas politicamente na direção da ideia comunista. Há ideias fundamentais que foram experimentadas e que ainda permanecem e, em cujo centro, encontramos a convicção segundo a qual nada ocorrerá enquanto uma fração significativa dos intelectuais não aceite estar organicamente ligada às grandes massas populares. Esse ponto está totalmente ausente hoje em várias regiões do mundo. Em maio de 68 e nos anos 70, este ponto foi abandonado. Hoje pagamos o preço desse abandono que significou a vitória completa e provisória do capitalismo mais brutal. 

A vida concreta de Marx e Engels consistiu em participar nas manifestações na Alemanha e em tentar criar uma Internacional. E o que era a Internacional? A aliança dos intelectuais com os operários. É sempre por aí que se começa. Eu chamo então a que comecemos de novo: por um lado com a ideia comunista e, por outro, com um processo de organização sob esta ideia que, evidentemente, levará em conta o conjunto do balanço histórico, mas que, em certo sentido, terá que começar de novo.

Caído, derrotado no abismo ou simplesmente ferido? Na sua avaliação, em que fase se encontra o capitalismo: em seu ocaso, como acreditam alguns, ou somente vivendo um recesso devido a suas enormes contradições internas?

O capitalismo é um sistema de roubo planetário exacerbado. Pode-se dizer que o capitalismo é uma ordem democrática e pacífica, mas é um regime de depredadores, é um regime de banditismo universal. E digo banditismo de maneira objetiva: chamo bandido a qualquer um que considere que a única lei de sua atividade é seu próprio proveito. Mas um sistema como este que, por um lado, tem a capacidade de se estender e, por outro, de deslocar seu centro de gravidade é um sistema que está longe de estar moribundo.

Não é o caso de acreditar que, pelo fato de estarmos em uma crise sistêmica, nos encontramos à beira do colapso do capitalismo mundializado. Acreditar nisso seria ver as coisas através da pequena janela da Europa. Creio que há dois fenômenos que estão entrelaçados. O primeiro é a derrocada da segunda etapa da experiência comunista, a falência dos Estados socialistas. Essa falência abriu uma enorme brecha para o outro termo da contradição planetária que é o capitalismo mundializado. Mas também abriu novos espaços de tensões materiais. O desenvolvimento capitalista de países do porte da China e da Índica, assim como a recapitalização da ex-União Soviética tem o mesmo papel que o colonialismo no século XIX. Abriu espaços gigantes de manobra, de clientela de novos mercados.

Estamos vivendo agora esse fenômeno: a mundialização do capitalismo que se fez potente e se multiplicou pelo enfraquecimento de seu adversário histórico do período precedente. Esse fenômeno faz com que, pela primeira vez na história da humanidade, se possa falar realmente de um mercado mundial. Esse é um primeiro fenômeno. O segundo é o deslocamento do centro de gravidade. Estou convencido de que as antigas figuras imperiais, a velha Europa, por exemplo, a qual apesar de sua arrogância tem uma quantidade considerável de crimes que ainda aguardam perdão, e os Estados Unidos, apesar do fato de ainda ocupar um lugar muito importante, são na verdade entidades capitalistas progressivamente decadentes e até um pouco crepusculares. Na Ásia, na América Latina, com a dinâmica brasileira, e inclusive em algumas regiões do Oriente Médio, vemos aparecer novas potências. O sistema da expansão capitalista chegou a uma escala mundial, mas o sistema das contradições internas do capitalismo modifica sua geopolítica. As crises sistêmicas do capitalismo – hoje estamos em uma grave crise sistêmica – não têm o mesmo impacto segundo a região. Temos assim um sistema expansivo com dificuldades internas.

Mas esses novos polos se desenvolvem segundo o mesmo modelo.
Sim, e não creio que esses novos polos introduzam uma diferenciação qualitativa. É um deslocamento interno ao sistema que dá a ele margem de manobra.

Há duas versões de um de seus livros mais importantes: trata-se do Manifesto para a Filosofia. O primeiro Manifesto foi publicado há vinte anos, o segundo há dois. Se levamos em conta as revoluções árabes e as crises do sistema financeiro internacional, o que mudou fundamentalmente no mundo e no ser humano entre os dois manifestos?

O que mudou mais profundamente é a divisão subjetiva. As escolhas fundamentais às quais estiveram confrontados os indivíduos durante o primeiro período estavam ainda dominadas pela ideia da alternativa entre orientação revolucionária e democracia e economia de mercado. Dito de outro modo, estávamos na constituição do debate entre totalitarismo e democracia. Isso exige dizer quer todo o mundo estava sob o influxo do balanço da experiência histórica do século XX. O primeiro Manifesto foi publicado em 1989, quase ao final do século XX. Em escala mundial, esta discussão, que adquiriu formas distintas segundo os lugares, se focalizou em qual poderia ser o balanço deste século XX. Por acaso, temos que condenar definitivamente as experiências revolucionárias? É preciso abandoná-las porque foram despóticas, violentas? Neste sentido, a pergunta era: devemos ou não nos unir à corrente democrática e entrar na aceitação do capitalismo como um mal menor?

A eficácia do sistema não consistiu em dizer que o capitalismo era magnífico, mas sim que era o mal menor. Na verdade, tirando um punhado de pessoas ninguém pensa que o capitalismo é magnífico. Mas o que se disse nesse período foi que a alternativa era desastrosa. Há 20 anos estávamos neste contexto, ou seja, a reativação da filosofia inspirada pela moral de Kant. Ou seja, não é o caso de ter grandes ideias de transformação política voluntaristas porque isso conduz ao terror e ao crime, mas sim velar por uma democracia pacificada dentro da qual os direitos humanos estarão protegidos. Hoje esta discussão está terminada e está terminada porque todo mundo vê que o preço pago por essa democracia pacificada é muito elevado. Todo mundo toma consciência que se trata de um mundo violento, com outras violências, que a guerra segue rondando todo o tempo, que as catástrofes ecológicas e econômicas estão na ordem do dia e que, além disso, ninguém sabe para onde vamos.

Podemos imaginar que esta ferocidade da concorrência e esta constante submissão à economia de mercado durem ainda vários séculos? Todo mundo sente que não, que se trata de um sistema patrológico. Foi revelado que este sistema, que nos foi apresentado como um sistema moderado, sem dúvida em nada formidável, mas melhor que todos os demais, é um sistema patológico e extremamente perigoso. Essa é a novidade. Não podemos mais ter confiança no futuro desta visão das coisas. Estamos em uma fase de transição e incerteza. Introduziu-se a hipótese de uma espécie de humanismo renovado que poderíamos chamar de humanismo de mercado, o mercado, mas humano. Creio que essa figura, que segue vigente graças aos políticos e aos meios de comunicação, está morta. É como a União Soviética: estava morta antes de morrer. Creio que, em condições diferentes e em um universo de guerra, de catástrofes, de competição e de crise, esta ideia do capitalismo com rosto humano e da democracia moderada está morta. Agora será preciso não mais escolher entre duas visões constituídas, mas sim inventar uma.

Dessa ambivalência provém talvez a sensação de que as jovens gerações estão perdidas, sem confiança em nada?

Isso é o que sinto na juventude de hoje. Sinto que a juventude está completamente imersa no mundo tal como é, não tem ideia de outra alternativa, mas, ao mesmo tempo, está perdendo confiança neste mundo, está vendo que, na verdade, este mundo não tem futuro, carece de toda significação para o futuro. Creio que estamos em um período onde as propostas de ideias novas estão na ordem do dia, mesmo que uma boa parte da opinião não saiba disso. E não sabe porque ainda não chegamos ao final deste esgotamento interno da promessa democrática. É o que eu chamo de período intervalo: sabemos que as velhas escolhas estão acabadas, mas não sabemos ainda muito bem quais são as novas escolhas.

Vários filósofos apontam o fato de que os valores capitalistas destruíram a dimensão humana. Você acredita, ao contrário, que ainda persiste uma potência altruísta no ser humano.

Devemos olhar o que ocorreu nas manifestações dos países árabes. Nunca acreditei que essas manifestações iam inventar um novo mundo de um dia para o outro, nem pensei que essas revoltas apresentavam soluções novas para os problemas planetários. Mas o que me assombrou foi a reaparição da generosidade do movimento de passa, quer dizer, a possibilidade de agir, de sair, de protestar, de pronunciar-se independentemente do limite dos interesses imediatos e fazê-lo junto a pessoas que, sabemos, não compartilham nossos interesses. Aí encontramos a generosidade da ação, a generosidade do movimento de massa, temos a prova de que esse movimento ainda é capaz de reaparecer e reconstituir-se. Com todos os seus limites, também temos um exemplo semelhante com o movimento dos indignados. 

O que fica evidente em tudo isso é que estão aí em nome de uma série de princípios, de ideias, de representações. Esse processo, obviamente, será longo. O movimento da primavera árabe me parece mais interessante que o dos indignados porque tem objetivos precisos, ou seja, a desaparição de um regime autocrático e o tema fundamental que é o horror diante da corrupção. A luta contra a corrupção é um problema capital do mundo contemporâneo. Nos indignados vimos a nostalgia do velho Estado providência. Mas volto a reiterar que o interessante em tudo isso é a capacidade de fazer algo em nome de uma ideia, mesmo que essa ideia tenha acentos nostálgicos. O que me interessa saber é se ainda temos a capacidade histórica de agir no regime da ideia e não simplesmente segundo o regime da concorrência ou da conservação. Isso para mim é fundamental. A reaparição de uma subjetividade dissidente, seja quais forem suas formas e suas referências, isso me parece muito importante.

Você publicou um livro sobre o amor, que é de uma sabedoria comovedora. Para um filósofo comprometido com a ação política e cujo pensamento integra as matemáticas, a aparição do tema do amor é pouco comum.

O amor é um tema essencial, uma experiência total. O amor está ameaçado pela sociedade contemporânea. O amor é um gesto muito forte porque significa que é preciso aceitar que a existência de outra pessoa se converta em nossa preocupação. No amor, o fundamental está em que nos aproximamos do outro com a condição de aceita-lo em minha existência de forma completa, inteira. Isso é o que diferencia o amor do interesse sexual. Este se fixa sobre o que os psicanalistas chamaram de “objetos parciais”, ou seja, eu extraio do outro alguns emblemas fetiches que me interessam e que suscitam minha excitação desejante. Não nego a sexualidade, pelo contrário. Ela é um componente do amor. Mas o amor não é isso. O amor é quando estou em estado de amar, de estar satisfeito e de sofrer e de esperar tudo o que vem do outro: a maneira como viaja, sua ausência, sua chegada, sua presença, o calor de seu corpo, minhas conversas com ele, os gostos compartilhados. Pouco a pouco, a totalidade do que o outro é torna-se um componente de minha própria existência. Isso é muito mais radical que a vaga ideia de preocupar-me com o outro. É o outro com a totalidade infinita que representa e com o qual me relaciono em um movimento subjetivo extraordinariamente profundo.

Em que sentido o amor está ameaçado pelos valores contemporâneos?

Está ameaçado porque o amor é gratuito e, desde o ponto de vista do materialismo democrático, injustificado. Por que deveria me expor ao sofrimento da aceitação da totalidade do outro? O melhor seria extrair dele o que melhor corresponde aos meus interesses imediatos e aos meus gostos e descartar o resto. O amor está ameaçado hoje porque é distribuído em fatias. Observemos como se organizam as relações nestes portais de internet onde as pessoas entram em contato: o outro já vem fatiado em fatias, um pouco como a vaca nos açougues. Seus gostos, seus interesses, a cor dos olhos, o corte dos cabelos, se é grande ou pequeno, loiro ou moreno. Vamos ter uns 40 critérios e, ao final, vamos nos dizer: vou comprar este. É exatamente o contrário do amor. O amor é justamente quando, em certo sentido, não tenho a menor ideia do que estou comprando.

E frente a essa modalidade competitiva das relações, você proclama que o amor deve ser reinventado para nos defendermos, que o amor deve reafirmar seu valor de ruptura e de loucura.

O amor deve reafirmar o fato de que está em ruptura com o conjunto das leis ordinárias do mundo contemporâneo. O amor deve ser reinventado como valor universal, como relação em direção da alteridade, daquilo que não sou eu e onde a generosidade é obrigatória. Se não aceito a generosidade, tampouco aceito o amor. Há uma generosidade amorosa que é inevitável. Sou obrigado a ir na direção do outro para que a aceitação do outro em sua totalidade possa funcionar. Essa é uma excelente escola para romper com o mundo tal como é. Minha ideia sobre a reinvenção do amor quer dizer o seguinte: uma vez que o amor se refere a essa parte da humanidade que não está entregue à competição, à selvageria; uma vez que, em sua intimidade mais poderosa, o amor exige uma espécie de confiança absoluta no outro; uma vez que vamos aceitar que este outro esteja totalmente presente em nossa própria vida, que nossa vida esteja ligada de maneira interna a esse outro, pois bem, já que tudo descrito acima é possível isso prova que não é verdade que a competitividade, o ódio, a violência, a rivalidade e a separação sejam a lei do mundo.

A política não está muito afastada de tudo isso. Para você, há uma dimensão do amor na ação política?

Sim, inclusive pode resultar perigoso. Se buscamos uma analogia política do amor eu diria que, assim como no amor onde a relação com uma pessoa tem que constituir sua totalidade existencial como um componente de minha própria existência, na política autêntica é preciso que haja uma representação inteira da humanidade. Na política verdadeira, que também é um componente da vida verdadeira, há necessariamente essa preocupação, essa convicção segundo a qual estou ali enquanto representante e agente de toda a humanidade. Do mesmo modo que ocorre no amor, onde minha preocupação, minha proposta e minha atividade estão ligadas à existência do outro em sua totalidade.

O que pode fazer um casal jovem e enamorado neste mundo violento, competitivo, onde o projeto do casal já está ameaçado pela própria dinâmica do consumo e da competição?

Creio que o projeto de um casal pode ser uma rama se não se dissolve, se não se metamorfoseia em um projeto que acabe se transformando, no fundo, na acumulação de interesses particulares. Na situação de crise e de desorientação atual o mais importante é segurar as mãos no timão da experiência pela qual estamos passando, seja no amor, na arte, na organização coletiva, no combate político. Hoje, o mais importante é a fidelidade: em um ponto, ainda que seja em apenas um, é preciso não ceder. E para não ceder devemos ser fieis ao que ocorreu, ao acontecimento. No amor, é preciso ser fiel ao encontro com o outro porque vamos criar um mundo a partir desse encontro. Claro, o mundo exerce uma pressão contrária e nos diz: “cuidado, defenda-se, não deixe que o outro abuse de ti”. Com isso está dizendo: “voltem ao comércio ordinário”.

Então, como essa pressão é muito forte, o fato de manter o timão no rumo certo, de manter vivo um elemento de exceção, já é extraordinário. É preciso lutar para conservar o excepcional que ocorre em nossas vidas. Depois veremos. Dessa forma salvaremos a ideia e saberemos o que é exatamente a felicidade. Não sou um asceta, não sou a favor do sacrifício. Estou convencido de que se conseguimos organizar uma reunião com trabalhadores e colocamos em marcha uma dinâmica, se conseguimos superar uma dificuldade no amor e nos reencontramos com a pessoa que amamos, se fazemos uma descoberta científica, então começamos a compreender o que é a felicidade. A felicidade é uma ideia fundamental. A construção amorosa é a aceitação conjunta de um sistema de riscos e de invenções.

Você também introduz uma ideia peculiar e maravilhosa: devemos fazer tudo para preservar o que nos ocorre de excepcional.

Aí está o sentido completo da vida verdadeira. Uma vida verdadeira se configura quando aceitamos os presentes perigosos que a vida nos oferece. A existência nos traz riscos, mas, na maioria das vezes, estamos mais espantados que felizes por esses presentes. Creio que aceitar isso que nos ocorre e que parece raro, estranho, imprevisível, excepcional, que seja o encontro com uma mulher ou o maio de 68, aceitar isso e suas consequências, isso é a vida, a verdadeira vida.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer

Artigo publicado originalmente no site Carta Maior (www.catamaior.com.br)

 
A impulsividade pode ser inimiga impiedosa do amor! Por Rosana Braga

rosanabragaHá quem defenda que “quem muito pensa, não faz”. Esse ditado, quando mal interpretado, pode dar brechas para erros desastrosos. Portanto, antes de sair por aí agindo desembestadamente, baseando-se somente em impulsos e emoções enganadoras da inteligência, pare, respire fundo e reflita!

Sim! Pessoas que conseguem se dar conta de suas próprias emoções, especialmente daquelas avassaladoras, que tomam conta da razão entorpecendo seu juízo, têm chances muito maiores de se dar bem no amor e na vida em geral.

Claro, vale considerar que pensar em excesso não é bom, mas vale muito considerar também que não pensar pode ser uma armadilha extremamente perigosa. Sentimentos como raiva, ciúme, insegurança e medo são motivadores perfeitos para atitudes equivocadas.

Quando nos deixamos afogar em sentimentos que provocam nosso ego e nosso orgulho, ficamos inconscientes. Perdemos a capacidade de enxergar com clareza o que está de fato acontecendo. E o pior: tendemos a nos julgar cheios de razões e certezas que, muito provavelmente, não temos. Pelo menos não na medida em que achamos que temos.

Assim, tendemos a desconsiderar as razões do outro, a não ouvir o que ele está dizendo, a cometer injustiças e a tomar decisões das quais nos arrependeremos depois, quando a consciência voltar e a inteligência se sobressair.

Para não correr o risco de ser tarde demais para consertar o estrago que sua impulsividade causou, o melhor é aprender a lidar com ela. No momento em que sentir o sangue subindo e fervendo, lembre-se: é hora de usar sua perspicácia! Afinal, ninguém quer ser burro, muito menos consigo mesmo, correndo o risco de botar a perder o que lhe é muito caro e importante!

Perspicácia, neste caso, significa: não é hora de agir. Não é hora de falar. Não é hora de fazer escolhas nem tomar decisões. É hora de esperar, de ficar em silêncio. O ideal, se possível, é respirar profunda e atentamente. Relaxar os músculos, aliviar as tensões dos ombros e do maxilar. Caminhar também é providencial...

Depois, de preferência no dia seguinte, procure observar o todo, rever seus conceitos de forma mais equilibrada e justa. Escreva em uma folha de papel, se achar que isso pode esclarecer melhor os fatos. Pergunte, converse, ouça, ouça, ouça. Se sentir que precisa de mais tempo, peça. Senão, fale, exponha seus sentimentos e pensamentos, conte suas decisões, tome suas atitudes.

Por fim, exercite sua sabedoria e avise: caso chegar à conclusão de que estava errado, vai admitir e pedir desculpas. Assim, bem mais dono de si e de sua vida, você estará aumentando consideravelmente sua chance de acertar e não só de ser, mas também de fazer as pessoas ao seu redor muito mais felizes!

www.rosanabraga.com.br

 
A turma do SOPA não entendeu nada por Paulo Moreira Leite

paulo_moreira_leiteNuma hora em que tantas pessoas prestam atenção na blogueira  cubana Yaoni Sanchez, também é muito relevante discutir o SOPA e o PIPA.

 
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