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O Discurso do século. Por Guaicaípuro Cuatemoc
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Cultura
Ter, 26 de Fevereiro de 2008 03:25
Um surpreendente discurso feito pelo embaixador Guaicaípuro Cuatemoc, de descendência indígena, advogando o pagamento da dívida externa do seu  país,  o México, deixou embasbacados os principais chefes de Estado da  Comunidade Européia. A conferência dos chefes de Estado da União Européia, Mercosul  e Caribe, em maio de 2002 em Madri, viveu um momento revelador e  surpreendente: os chefes de Estado europeus ouviram perplexos e calados  um  discurso irônico, cáustico e de exatidão histórica que lhes fez  Guaicaípuro Cuatemoc.  "Aqui estou eu, descendente dos que povoaram a América há 40 mil anos,  para encontrar os que a descobriram só há 500 anos. O irmão europeu da  aduana  me pediu um papel escrito, um visto, para poder descobrir os que me  descobriram. O irmão financista europeu me pede o pagamento - ao meu  país -,  com juros, de uma dívida contraída por Judas, a quem nunca autorizei que  me  vendesse. Outro irmão europeu me explica que toda dívida se paga com  juros,  mesmo que para isso sejam vendidos seres humanos e países inteiros sem  pedir-lhes consentimento. Eu também posso reclamar pagamento e juros.
 
Consta no Arquivo da Cia. das Índias Ocidentais que, somente entre os  anos 1503 e 1660, chegaram a São Lucas de Barrameda 185 mil quilos de ouro e  16 milhões de quilos de prata provenientes da América.

Teria sido isso um saque? Não acredito, porque seria pensar que os irmãos cristãos faltaram ao sétimo mandamento!

Teria sido espoliação? Guarda-me Tanatzin de me convencer que os  europeus, como Caim, matam e negam o sangue do irmão.
 
Teria sido genocídio? Isso seria dar crédito aos caluniadores, como  Bartolomeu de Las Casas ou Arturo Uslar Pietri, que afirmam que a  arrancada  do capitalismo e a atual civilização européia se devem à inundação de  metais preciosos tirados das Américas.

Não, esses 185 mil quilos de ouro e 16 milhões de quilos de prata foram o primeiro de tantos empréstimos amigáveis da América destinados ao desenvolvimento da Europa. O contrário disso seria presumir a existência  de crimes de guerra, o que daria direito a exigir não apenas a devolução,  mas indenização por perdas e danos.

Prefiro pensar na hipótese menos ofensiva. Tão fabulosa  exportação de capitais não foi mais do que o início de um plano 'MARSHALL  MONTEZUMA', para garantir a reconstrução da Europa arruinada por suas deploráveis guerras contra os muçulmanos, criadores da álgebra, da  poligamia, e de outras conquistas da civilização.

Para celebrar o quinto centenário desse empréstimo, podemos perguntar: Os irmãos europeus fizeram uso racional responsável ou pelo menos produtivo desses fundos?


Não. No aspecto estratégico, dilapidaram nas batalhas de Lepanto, em  navios invencíveis, em terceiros reichs e várias formas de extermínio mútuo. No aspecto financeiro, foram incapazes, depois de uma moratória de 500 anos, tanto de amortizar o capital e seus juros quanto independerem das rendas líquidas, das matérias-primas e da energia barata que lhes exporta e  provê todo o Terceiro Mundo.

Este quadro corrobora a afirmação de Milton Friedman, segundo a qual uma economia subsidiada jamais pode funcionar e nos obriga a reclamar-lhes,  para seu próprio bem, o pagamento do capital e dos juros que, tão  generosamente, temos demorado todos estes séculos em cobrar. Ao dizer isto, esclarecemos  que não nos rebaixaremos a cobrar de nossos irmãos europeus, as mesmas  vis e sanguinárias taxas de 20% e até 30% de juros ao ano que os irmãos europeus  cobram dos povos do Terceiro Mundo.

Nos limitaremos a exigir a devolução dos metais preciosos, acrescida de  um módico juro de 10%, acumulado apenas durante os últimos 300 anos, com 200  anos de graça. Sobre esta base e aplicando a fórmula européia de juros  compostos, informamos aos descobridores que eles nos devem 185 mil quilos  de  ouro e 16 milhões de quilos de prata, ambas as cifras elevadas à potência de  300. Isso quer dizer um número para cuja expressão total será necessário
expandir o planeta Terra.

Muito peso em ouro e prata... quanto pesariam se calculados em sangue?

Admitir que a Europa, em meio milênio, não conseguiu gerar riquezas suficientes para esses módicos juros, seria como admitir seu absoluto  fracasso financeiro e a demência e irracionalidade dos conceitos  capitalistas.

Tais questões metafísicas, desde já, não inquietam a nós, índios da  América. Porém, exigimos assinatura de uma carta de intenções que enquadre os  povos devedores do Velho Continente e que os obriguem a cumpri-la, sob pena de  uma privatização ou conversão da Europa, de forma que lhes permitam entregar suas terras, como primeira prestação de dívida histórica..."

Quando terminou seu  discurso diante dos chefes de Estado da Comunidade Européia, o Cacique  Guaicaípuro Guatemoc não sabia que estava expondo  uma tese de Direito Internacional para determinar a verdadeira dívida  externa.

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