De passagem pelo Brasil, filósofo francês
concede entrevista exclusiva à Carta Maior, na qual analisa a crise financeira,
comenta as situações dos EUA e da Europa e aponta os desafios para a esquerda
construir uma alternativa ao modelo atual.
RIO DE JANEIRO - No Brasil para uma série de
palestras que acompanham o lançamento de um de seus livros - Os Irredutíveis,
teoremas de resistência para o tempo presente (Ed. Boitempo) - o cientista
político e filósofo francês Daniel Bensaïd, em entrevista exclusiva à Carta
Maior, analisa a crise financeira global e seus possíveis desdobramentos.
Durante a conversa, que aconteceu antes da palestra realizada segunda-feira (3)
na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Bensaïd apontou as
contradições dos líderes europeus de direita que falam em um "novo acordo de
Bretton Woods" e afirmou - ainda sem saber o resultado das eleições - que a
liderança dos Estados Unidos sofre um declínio irreversível e que a hegemonia
norte-americana só se sustenta atualmente graças ao poderio militar e político
do país.
Renomado teórico trotskista, Bensaïd fez também duras críticas à
social-democracia européia e apontou a falta de um projeto de esquerda na
Europa. O francês afirma não conhecer muito bem a situação da América Latina,
mas acredita que os governos de esquerda da região podem constituir uma
alternativa local à crise. Ele afirma também que chegou a hora de dizer qual
"outro mundo possível" realmente queremos. Leia abaixo a entrevista de Daniel
Bensaïd, que dará palestras hoje (5) em Porto Alegre (Memorial Rio Grande do
Sul, 19h), amanhã (6) em São Paulo (PUC, 19h) e no sábado (8) em Ouro Preto
(Casa da Ópera, 9h30):
Carta Maior - Quais são suas impressões,
em linhas gerais, sobre a atual crise financeira mundial? Estamos diante de uma
crise terminal do sistema capitalista?
Daniel Bensaïd - O
capitalismo não vai acabar sozinho. Esta é uma crise histórica, e não somente
uma crise ordinária, como o capitalismo conheceu a cada dez ou quinze anos. Essa
crise era também previsível, porque é impossível exigir_ como fazem os
acionistas _ um retorno sobre seus investimentos da ordem de quinze por cento ao
ano frente a um crescimento que em média, no caso dos países desenvolvidos, é de
dois ou três por cento ao ano. Alguns dizem que a crise financeira pode chegar à
economia real, o que é uma fórmula um pouco absurda porque as finanças fazem
parte da economia, elas não são irreais, efetivamente. Por trás dessa crise
financeira já havia uma crise de produção. Ao menos para os países europeus - eu
não conheço as estatísticas sobre o Brasil - a divisão do valor agregado entre
salário e trabalho se deslocou dez por cento em favor do capital, ou seja, do
ganho do capital em detrimento do trabalho, o que provoca uma crise
incontrolável. Para continuar a vender - porque se existe o produto é preciso
vendê-lo - houve um aumento totalmente louco do crédito, e não somente do
crédito hipotecário imobiliário nos Estados Unidos. Também aumentou o crédito ao
consumo, o crédito às empresas, etc. A crise, desse ponto de vista, era
previsível.
Por outro lado, ela não é simplesmente uma fatalidade, é o
resultado de decisões políticas que se acumularam por vinte anos, porque a
desregulamentação das bolsas, a livre circulação de capitais, o desenvolvimento
dos ganhos do capital não fiscalizados, tudo isso foi precedido por uma série de
medidas legislativas tomadas pelos diferentes parlamentos na Inglaterra, na
França, na Alemanha, etc. No que concerne à Europa, isso foi sistematizado pelos
diferentes tratados da União Européia, de Maastrich em 1992 até o Tratado de
Lisboa no ano passado, que codificaram o livre mercado europeu. Portanto, essa
era uma crise previsível e ela é muito grave porque é globalizada, esse é seu
caráter inédito. Mas, por trás de tudo isso, eu creio que o capitalismo poderá
se restabelecer, ele já resistiu a outras crises. O problema é saber a qual
preço e quem vai pagar o preço, pois essa é, afinal de contas, uma crise mais
profunda. No jargão marxista, podemos dizer que a lei do valor atualmente
funciona muito mal. Hoje, não podemos medir pelo tempo do relógio um trabalho
social muito complexo, que cada vez mais mobiliza conhecimento acumulado, como
não podemos tampouco medir a crise ecológica pela flutuação das bolsas de
valores.
CM - A crise ambiental, com o problema do aquecimento
global, torna a crise financeira ainda mais grave. Estamos vivendo uma crise da
humanidade?
DB - Sim, e a crise ambiental não é um problema
qualquer. Quando pensamos nas conseqüências, que virão durante séculos ou talvez
milhares de anos, da estocagem de lixo nuclear, da destruição das florestas, da
poluição dos oceanos e, agora, das mudanças climáticas, vemos que todos esses
problemas não poderão ser controlados simplesmente pelos mecanismos do mercado
que, por definição, são mecanismos que arbitram no curto prazo ou de maneira
instantânea. Está no centro do que chamamos de organização social a prática de
medir toda riqueza, toda relação social, e mesmo a relação da sociedade humana
com a natureza, pelo único critério do tempo de trabalho
abstrato.
CM - Os países da Europa tomaram a dianteira contra a
crise com medidas protecionistas e forte presença do Estado. O presidente da
França, Nicolas Sarkozy, afirmou que os países devem caminhar para um novo
Bretton Woods. Como o senhor analisa a posição européia?
DB -
Existe uma contradição em uma crise como esta. Como a globalização esta aí e é,
em parte, irreversível, todo mundo hoje, e mesmo os antigos liberais fanáticos
de outrora, pensa que é preciso estabelecer uma regulação e novas regras do
jogo. Todo mundo fala de uma regulação em escala mundial, um novo Bretton Woods,
ou ao menos em escala continental como, se pegarmos o exemplo da Europa, a
criação do Fundo Soberano Europeu. Estas são as intenções. Ao mesmo tempo,
dentro de uma crise grave como esta, cada um tenta jogar de forma solitária, e
nós observamos desde o início da crise interesses diferentes como, por exemplo,
na Alemanha e na Irlanda, que quiseram proteger seus próprios capitais e seus
próprios bancos.
É cedo demais para dizer quem vai levar a melhor ou se
haverá uma espécie de solidariedade entre capitalistas suficientemente forte
para criar mecanismos de controle da crise e de solução para os nossos
problemas. Ou ainda, ao contrário, se vamos assistir a um agravamento muito
forte da concorrência intercapitalista, interimperialista ou entre os grandes
blocos. Uma crise como a atual cria também tendências centrífugas muito
fortes.
CM - O senhor acredita que esta crise consolida o
declínio dos Estados Unidos como potência hegemônica
mundial?
DB - Do ponto de vista econômico, o declínio do
império americano começou há muito tempo. Os EUA é o país mais endividado do
mundo, que continua a desempenhar um papel hegemônico, em grande parte, por
causa do seu poderio militar, que representa 60% dos armamentos e das despesas
com armamentos em todo o mundo. E, atualmente, existe um efeito perverso, pois a
dívida americana havia sido neutralizada pelo deslocamento de capitais dos
países produtores de petróleo e da China aos EUA sob forma de Obrigações do
Tesouro, ou seja, em dólares. Se esse capitais se retiram, eles fazem o dólar
cair e os EUA perdem de todo jeito. Portanto, do ponto de vista econômico,
existe uma espécie de mecanismo que deixa os EUA na condição de refém. Enquanto
os EUA mantiver a hegemonia militar, o cenário atual poderá durar, mas a gente
vê muito bem hoje, e via mesmo antes da crise, que o euro - ou mesmo o yen, mas,
sobretudo o euro - pode se tornar a moeda de reserva no lugar do dólar, que
ainda guarda seu papel de moeda de troca internacional muito mais por causa da
potência política e militar estadunidense do que por causa da solidez da
economia dos Estados Unidos. Por isso, eu creio que hoje o declínio dos EUA é
irreversível.
CM - Qual sua avaliação sobre o posicionamento da
esquerda frente à crise financeira? O senhor acredita que os governos de
esquerda da América Latina podem ter papel importante na busca de soluções para
a crise?
DB - Eu não conheço muito bem o contexto da América
Latina. Eu não sei qual vai ser, por exemplo, a capacidade da Venezuela se o
preço do petróleo continuar a cair, portanto é mesmo possível que os efeitos da
crise sejam mais duros para paises como a Bolívia ou a Venezuela do que para o
Brasil, que tem uma exportação mais diversificada. Eu penso que a crise se fará
sentir também no Brasil, mas talvez menos forte. Agora, se a reação à crise vai
começar a partir de um pólo bolivariano ou a partir da tentativa do Banco do Sul
para se tornar autônomo em relação ao dólar, se vai ser criada uma solidariedade
energética e alimentar entre os países da América Latina, se isso tudo vai
avançar ou não, a questão está aqui e a resposta está aqui. Eu não tenho
resposta.
CM - E na Europa, existe um projeto da
esquerda?
DB - A social-democracia, que é a maior força de
esquerda na Europa, vem destruindo metodicamente nos últimos vinte anos os
mecanismos do Estado-providência e do Estado de Bem Estar Social.Atualmente,
diante da brutalidade da crise, vemos dirigentes do Partido Socialista na França
falarem novamente de nacionalização. O que fez Sarkozy não foi em hipótese
alguma a nacionalização dos bancos. O que ele fez foi dar aos bancos a segurança
do Estado sem nem mesmo solicitar o direito a voto nos conselhos de
administração, foi meramente um socorro aos bancos.
Certas vozes de
esquerda pedem o relançamento de uma política de aumento dos salários, mas isso
exigiria uma política séria em escala européia, porque existe o desafio de fazer
em nível europeu o contrário do que fizeram os partidos socialistas nos governos
nacionais nos últimos vinte anos, ou seja, reconstruir os serviços públicos
europeus, harmonizar a fiscalização européia, desenvolver uma fiscalização
fortemente progressiva e retomar o poder de compra. Isso significa destruir
todos os tratados sobre os quais foi construída a União Européia desde 1992. Eu
não acredito que exista nem a vontade política de fazer isso nem a força social
para fazer. Por uma razão, pois, através do processo que atravessou, a
social-democracia européia perdeu muito do seu apoio popular. Por outro lado,
ela se integrou muito fortemente ao topo, às empresas privadas e às finanças
globalizadas. O símbolo disso é a presença de dois social-democratas franceses
como homens de confiança do capital à frente da OMC (Dominique Strauss-Khan) e
do FMI (Pascal Lamy). Isso resume um pouco a situação.
CM - O
economista François Chesnais afirma que esta crise é a primeira etapa de um
processo muito longo e que não sabemos como ele vai acabar. O senhor sempre foi
um crítico contumaz tanto do capitalismo e da globalização financeira quanto dos
regimes socialistas constituídos sob a ótica stalinista. O senhor acredita que a
humanidade está preparada para construir uma terceira via?
DB
- A terceira via não passa nem pela gestão estatal e burocrática que faliu nos
países do Leste da Europa, notadamente na União Soviética, nem pelo liberalismo.
Muita gente diz hoje em dia que a crise não foi causada pelo capitalismo em si,
mas pelos excessos e abusos cometidos. Não, a crise foi causada fundamentalmente
pela própria lógica do capitalismo. Eu acredito que passamos da fase dos slogans
simpáticos dos fóruns sociais. Se um outro mundo é possível, chegou a hora de
dizer qual. Nós saímos de um século que terminou, sob o meu ponto de vista, com
uma derrota histórica das esperanças de emancipação. Nós entramos no século XXI
com muito menos ilusão do que nossos ancestrais entraram no século XX, sobretudo
os socialistas, que acreditavam no fim das guerras e da exploração.
O
problema atual é que estamos no início de uma longa reconstrução, mas, ao mesmo
tempo, numa corrida contra o relógio, mais do que nunca, pois vivemos uma crise
de destruição não somente social, mas também ecológica. Para mim, há somente uma
alternativa: opor à concorrência e à lógica do todos contra todos uma lógica do
bem comum, dos serviços públicos e da solidariedade. Podemos chamar isso de
socialismo, comunismo ou democracia autogestionária. É preciso tentar. Se nós
não tentarmos mudar o mundo, ele vai nos esmagar.
Publicado originalmente no www.cartamaior.com.br
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