Salvador, 21 de September de 2019
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Cinco minutos para Waldir? Por Ernesto
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Qua, 14 de Agosto de 2019 23:08

Ernesto_MarquesA cena transcorria rigorosamente dentro do previsto, sem surpresas - e não tinha razão para ser diferente. Mas foi preciso sentar e dar aquela olhada básica para os

lados da mesa e só então entender a saia justa: dentro de Casa, no auditório Samuel Celestino, na ABI, estava a abrir um debate com candidatos a vereador, reconhecidos como anti-racistas. O único debatedor branco era ninguém mais, ninguém menos que Waldir Pires. Eu, o mediador, o outro “tinta-fraca” na mesa.
Sim, demorou, mas eu me entendi naquela encruzilhada de sutilezas sociológicas por conta da caprichosa circunstância a mim reservada pelo destino. Um dos organizadores do Ciclo de Debates Negritude, Cultura e Cidadania quis me fazer um afago de mais velho quando me propôs mediar o debate. “A gente queria ver você debatendo como candidato, mas já que não deu, então seja o nosso mediador”, propôs Valmir França.
Já me sentia honrado por ter sido incluído entre reconhecidos anti-racistas. Entendi o gesto do mais velho e aceitei feliz e agradecido. Mas fiquei tão comovido, que a ficha só caiu quando já não havia mais o que fazer.
A mesa estava composta, os convidados já estavam se acomodando. Logo acabaria aquele breve quase silêncio antes de abrir os trabalhos, quando as pessoas já sacaram que vai começar, mas continuam conversando ou ainda chegando para sentar no lugar escolhido. Enquanto tento pensar numa saída possível, chega Raimundo Bujão, precedido pelos seus dreads. Abusando da nossa longa amizade, bota mais pressão na panela: “é, jornalista… a geral quer saber se esse negócio de cinco minutos pra cada candidato é pra todo mundo mesmo, ou se você vai controlar Waldir pra ele falar só o tempo regulamentar!” E saiu gargalhando performaticamente, como quem aplica um ardiloso xeque!
Francisco Waldir Pires de Souza, era prolixo por convicção desde a sua estreia como orador, ainda adolescente, como conta Emiliano José, no primeiro volume da biografia do ex-governador, ali candidato a vereador aos 86 anos. Era prolixo nas coletivas quase doutrinárias que ele concedia como o governador-sensação, entre os 22 eleitos pelo MDB, em 1986, e das quais eu participava como um compenetrado foca.
Foi prolixo a vida toda, e não deixaria de sê-lo naquela noite apenas pra me livrar daquela saia justa! Tão naturalmente prolixo, que ele, com certeza, não estava preocupado com a minha circunstância, e talvez nem se desse conta do meu desconforto.
Viro para a minha esquerda e três (Gilmar Santiago, Silvio Humberto e mais um, cujo nome me escapa agora) sincronizam os olhares em minha direção. Viro para a direita, Marta Rodrigues, a única mulher, ao meu lado; Nadinho do Congo, na ponta e, entre eles, Waldir e seu característico meio-sorriso com os olhos semi-cerrados.
Olho para frente e encaro uma plateia quase 100% negra, já em silêncio. Nas últimas fileiras, como todo bom malandro desde os tempos escolares, o sacana do Bujão com um sorriso de puro deboche congelado, até ali em silêncio, esperando cinicamente, como quem diz: “sai dessa, vá!”
Faço os cumprimentos protocolares, agradeço pelo convite que me meteu naquela tremenda saia justa e vou mantendo a linha, quase disfarçando o nervosismo com a situação.
- Como todos sabem, cada candidato terá cinco minutos, e eu peço que sejam todos rigorosos no cumprimento do tempo estabelecido, porque serão pelo menos 30 minutos e ainda precisamos assegurar um bom tempo para debate com a plateia.

 

Mais alguns intermináveis segundos de silêncio, e eu me via caminhando inescapavelmente para o cadafalso. Sem saída!
Olho para o fundo do auditório e Bujão está lá, arregalando os olhos como quem diz: sim, mas, e ai??” E como já não fosse mais possível encher linguiça para postergar o início do debate, arrisquei uma espécie de sincericídio:
Vamos então começar o debate.
- Doutor Waldir, se o senhor não se opõe, gostaria de começar pelo senhor por duas razões.
Ele então muda a expressão e tira o sorriso sem abrir mão da leveza, para dizer, movendo uns poucos músculos da face, que estava realmente a prestar atenção.
Como se regesse as reações da plateia, basicamente lideranças de diversas entidades dos movimentos do povo negro de Salvador, Bujão franze as sobrancelhas como quem apura as vistas pra ouvir melhor.
- Primeiro, porque o senhor é o único candidato branco da mesa. Segundo, para o senhor me ajudar a resolver um problema “regimental”. É que estão todos aqui querendo saber como é que eu vou fazer para controlar o seu tempo, porque todos gostamos muito de lhe ouvir e o senhor gosta de falar. Mas se o senhor falar mais de cinco minutos, eu não vou ter como cobrar dos demais debatedores.
Deu certo… ele voltou a sorrir, os concorrentes sorriram, a plateia aprovou. Bujão também, mas eu registrei e não esqueci a cara de fradim que perdeu a piada.
E Waldir falou por apenas cinco minutos. Porque antes de ser prolixo, era um cavalheiro. E um doutrinador político, no melhor sentido da palavra.
Em 2012 ele foi eleito vereador quase sem fazer campanha. Chegou ao Plenário Cosme de Farias para cumprir seu último mandato, como vereador de Salvador pela vontade de mais de 12 mil soteropolitanos.
A última vez que o vi foi no lançamento do primeiro volume da biografia em dois tomos, resultado de longos anos de trabalho de Emiliano José. Partiria logo depois. Guardei esta lembrança de sete anos atrás trazida pelo Face pra jogar lenha na fogueira da expectativa sobre o lançamento do segundo volume. A lista de curiosidades históricas que espero saciar com a leitura vai da campanha de 1986, à renúncia eternamente controversa ao cargo de governador, às tentativas de chegar ao Senado e à experiência como vereador num colegiado com as características das últimas composições da Primeira Câmara do Brasil.
Vou encarar a fila de autógrafos sempre longa nos lançamentos de Emiliano José. Mas espero mesmo é o privilégio de resenhar com o autor que foi também o principal parceiro político de Waldir nas últimas décadas de jornada. Pago o café, Emiliano!

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Ernesto Marques é Jornalista

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Última atualização em Qui, 15 de Agosto de 2019 00:09
 

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