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Conheci um negão que transformava água em vinho!. Por Marconi de Souza Reis
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Dom, 16 de Julho de 2017 16:11

Marconi_de_Souza2Eu mostrei à minha esposa essa crônica acima, ontem à noite, e ela, com o rosto sério, mas suave, disse-me:
– Você é chato, viu cara. Mas, como dizem alguns dos seus amigos do Facebook, você é foda!
Caramba. Morro de medo de um dia perder o contato com o chão e afirmar: “Eu sou foda”. Vade retro!

Logo em seguida ao comentário, ela me aconselhou a escrever rapidamente um livro com apenas dois capítulos. No primeiro capítulo estaria a longa sentença de Moro. No capítulo dois, a minha versão.

Eu reagi:

– É uma boa ideia, mas isso só irá beneficiar o grupo de corruptos que tomou o poder no país. Posso fazer isso no futuro, quando a poeira baixar...

Olha, eu não li a peça de acusação (tese) e nem a da defesa (antítese) na ação que condenou Lula, mas, como já dito, a sentença (síntese) prolatada pelo juiz Sérgio Moro em 237 páginas fala por si só, ou seja, ele diz estar convicto dos crimes, mas falta-lhe destreza com a caneta sobre o papel branco, para convencer o não leigo.

A peça de Moro seria até razoável se ele possuísse prova inconteste (o elo fundamental) contra Lula, isto é, se os promotores fossem hábeis nesse sentido. Mas, amparado somente da convicção, faltou a Moro a envergadura argumentativa sobre os fatos existentes (e são muitos), ainda que vislumbremos tal habilidade por meio de uma escrita aristotelicamente lógica. Ou melhor, cartesianamente lógica.

Mais tarde, e talvez ao longo da semana, caso eu tenha tempo, revelarei aqui nessa rede social algumas peças jurídicas minhas, onde as curvas poéticas driblam a rigidez da lei, da jurisprudência e da doutrina jurídica. O mundo jurídico é, por natureza, o palco da antipoesia.

Ressalto que o meu jornalismo foi sempre pautado em documentos irrefutáveis. Resultado: os textos que escrevi no jornalismo eram retos (pobres em lirismo), até porque, com exceção da curva de Malba Tahan, a menor distância entre dois pontos é uma reta.

Reconheço que eu não primava em demonstrar que a flor pode vencer um leão, mas isso ocorria porque os documentos falavam por si só.

Todavia, um dia Ricardo Noblat, então diretor do jornal A Tarde, me chamou à sua sala e, por um bom tempo, ensinou-me como contar um fato verdadeiro sem documentos e sem testemunhas (ou com testemunhas que exigem sigilo), convencendo o leitor sobre a verdade narrada.

Não se trata de jornalismo fantástico – um parente do “realismo fantástico” de Gabriel Garcia Marquez –, mas de uma hermenêutica das letras.

Eu usei a técnica de Noblat para narrar o dia em que o desembargador Amadiz Barreto apresentou a filha Adriana a ACM no gabinete do Desenbahia. A única testemunha do encontro foi Cruz Rios, que exigiu sigilo da fonte. Enfim, foi um sucesso aquela história.

No livro “ACM e Adriana – uma história de amor, traição e grampo”, eu conto sobre o dia que ACM viu Adriana, pela primeira vez, de longe, lá em Londres. Isso é inédito. Só tomei conhecimento quando abandonei o jornalismo.

A verdade é que, em jornal, nunca mais usei a técnica que me foi ensinada por Noblat. Aqui na rede social, vez por outra, aplico esse método, e que tem até uma boa aceitação. Mas não é fácil.

O incrível é que Noblat lembra o técnico Vanderlei Luxemburgo, ou seja, ele não sabia fazer aquilo – era um repórter mediano, assim como Luxemburgo foi medíocre como lateral esquerdo do Flamengo –, mas sabe ensinar, como raros, o ofício.

Bem, eu escrevi esses textos de hoje (o principal e esse comentário), ouvindo Natalie Imbruglia, grande compositora/cantora australiana, que interpretou “Torn” (Ferida) há exatos 20 anos (em 1997).

“Torn”, composição de Scott Cutler, Anne Preven e Phil Thornalley, é o que se pode cravar como melodia original e eterna. Eu sou apaixonado por Natalie Imbruglia, a ponto de já ter revisto esse clipe abaixo inúmeras vezes desde que foi lançado.

Ora, se a sentença do juiz Moro refletisse essa canção, eu estaria aqui a elogiá-lo à beça, afinal, sei das culpas de Lula. De fato, não é necessário prova inconteste para se condenar um réu, mas, quando isso ocorre, exige-se do julgador/escritor uma capacidade literária argumentativa muito superior ao texto pobre da lei, da jurisprudência e da doutrina jurídica, para o convencimento alheio. O bom literato imagina fatos. Imagine, então, quando os fatos abundam...

Nesse contexto, lembro-me que havia um desembargador carlista no Tribunal de Justiça da Bahia, cujas tramoias eu denunciei no jornal A Tarde, e que se tornou meu inimigo. Quando ingressei na advocacia e passei a fazer sustentação oral no TJ/BA, ele sempre votava contra mim. Em várias ações cheguei a ter 30 votos contra 1. O único voto contrário a mim era o do cara, que nem justificava sua opção divergente. Hoje ele está aposentado.

Mas eu reconheço: o negão tinha um texto foda. Vá escrever bem na casa do caralho. Certo dia, lendo uma carta que esse desembargador enviou para o jornal A Tarde, na qual ele me atacava sem dó, eu comentei com Brito (editor de cartas do jornal) algo assim:

– Esse negão é tão bom no engenho das palavras, que ele é capaz de transformar um Fusca numa Ferrari, ou água em vinho, caso o plano para operar o milagre seja uma caneta e um papel em branco.

Enfim, perdoem-me os fãs de Moro, mas a verdade é que a sua narrativa é demais colegial, assim como a escrita de 95% do mundo jurídico. O verbo de Moro não passa de um “Despacito”, canção agora famosa, mas que, a exemplo de milhares de melodias da atualidade, sobreviverá apenas nos ouvidos de quem habitará o Jardim da Saudade, o Bosque da Paz, a Quinta dos Lázaros e o Campo Santo, dentre outros cemitérios.

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