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Macarthismo das miudezas por Marcelo Coelho
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Cultura
Qui, 14 de Fevereiro de 2008 07:51
Talvez exista, por trás do escândalo dos cartões, longa e envergonhada história de amor. LEIO, ESTARRECIDO, as últimas notícias de Brasília. Determinado ministro gastou R$ 8 comendo tapioca. Usou-se cartão corporativo para reformar uma mesa de sinuca.
A Radiobrás gastou R$ 36 numa loja de colchões. A explicação: era lona para cobrir um estúdio móvel nas transmissões do Carnaval.

Fico estarrecido, mas não com as despesas. Não com a chamada farra dos cartões corporativos. Fico estarrecido com a importância que se dá a tudo isso.
Não posso entender como um país se esquece de todos os seus problemas, e até mesmo de casos graves de corrupção, para discutir o fato de que o ministro dos Esportes usou um cartão corporativo para comer tapioca no café da manhã.

Abusos certamente existem. O maior deles foi o da ministra da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, que teve de deixar o cargo. Fez gastos em free shop e mesmo nas férias recorreu ao dinheiro público para o aluguel de carros. Foi fácil verificar isso no Portal da Transparência. Mas, como em toda corrida do ouro, o garimpo de notícias logo se esgota, e irregularidades microscópicas são esquadrinhadas como se estivéssemos diante de um novo mensalão.

Mas me parece nítida a desproporção entre o que foi aquela crise e o caso dos cartões. O mensalão envolvia bancos, publicitários, partidos e governo num sistema de financiamento político que tinha sérias repercussões do ponto de vista institucional e ideológico. Trazia a ameaça da perpetuação no poder do "núcleo duro" do PT e resultou na completa derrocada do discurso ético do partido.

Uma CPI para investigar os gastos da cozinha presidencial e dos seguranças de Lurian talvez chegasse, nunca se sabe, a um grande escândalo. Mas, como os gastos de Fernando Henrique seriam também investigados em represália, tudo já se arranja para evitar o aprofundamento da questão.

O rumo das investigações tende, assim, a desembocar em algum funcionário administrativo de pouca importância, que pagará pelo erro de ter gasto dinheiro público em coisas como o forro de uma mesa de sinuca.
Se ao menos a mesa de sinuca fosse dele... mas estava lá no próprio ministério! E o que dizer do reitor de uma universidade federal que teve de vir a público, com direito a fotografia e entrevista, simplesmente porque levou uma comitiva de convidados estrangeiros a um restaurante de luxo? Só o mais extremo patrulhamento moralista haveria de tratar o episódio como um escândalo nacional.

Com esse macarthismo das miudezas, que pode atingir qualquer administração, petista ou tucana, surge mais um fator de paralisação das atividades do Congresso, que devia estar discutindo a reforma política e a tributária. No fundo, talvez seja uma forma de fugir de um debate complexo, que ninguém se dispõe muito a acompanhar.
E talvez também exista, por trás do escândalo dos cartões, uma longa e envergonhada história de amor.
Tucanos e petistas possuem muito mais pontos em comum do que de discordância. Uma prévia desse complexo filme francês está sendo ensaiada no Estado de Minas Gerais, com o governador Aécio Neves e o prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel.

Qualquer aproximação política entre PT e PSDB se reveste, entretanto, das cores de um escândalo inconfessável. Programas de governo semelhantes encontram bases sociais em franca divergência; os eleitores de um partido têm ojeriza aos políticos do outro, e a disputa eleitoral em cada cidade não obedece ao consenso programático existente no plano federal. Dada a falta de nomes fortes no PT, nem chegaria a ser ilógico se uma candidatura de Aécio Neves tivesse um matiz mais governista do que de oposição. O próprio Serra discorda menos de Lula do que a "banda de música" que derrotou a CPMF.

O conflito entre PSDB e governo tem, entretanto, de continuar, ao preço de escândalos e denúncias de pouca relevância, mas de fácil consumo na opinião pública. Cria-se então uma CPI em torno de trocados, de tapiocas e colchões.

Trata-se do clássico caso em que os agentes de um processo político perdem a racionalidade e tornam-se presos a um discurso em que já não acreditam.
Colchões? Mesas de sinuca? Jantares à luz de velas? As vestais enrubescem. Nunca foram disso.

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