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Segredos da longevidade por Núria Escur
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Comportamento
Dom, 30 de Março de 2008 05:54
Permanecer em atividade e esquecer a aposentadoria. Maiores de 80 anos competem com jovens na oferta cultural e no trabalho social O filme francês "Medos Privados em Lugares Públicos" foi dirigido por Alan Resnais, e mesmo com cenas em ritmo lento e aos 86 anos levou o Leão de Prata de melhor diretor no Festival de Cinema de Veneza. Outro cineasta, o português Manoel de Oliveira, completa 100 este ano, e com um século nas costas ainda reclama que lhe devolvam, sem exceção, os papéis de Salamanca. Longe da inatividade ou da aposentadoria, uniram a suas mentes criativas a bagagem própria da experiência e o privilégio de ser testemunhas de uma época que às vezes ainda os surpreende.

Há algumas décadas era impossível imaginar que a maioria dos cidadãos cruzasse a fronteira dos 80 anos, e que além disso continuasse indo ao escritório, oficina ou campo. Que um cirurgião do porte de Joaquín Barraquer (81 anos) continuasse em sua clínica ou que criadores octogenários competissem nas bilheterias com cineastas de 30 ou publicassem livros que ocupam os primeiros lugares nas listas de vendas. Vinte anos além da aposentadoria oficial, eles continuam em ação.

Na Espanha vivem atualmente 10 mil pessoas centenárias, segundo dados do Instituto Nacional de Estatísticas (INE). E as previsões falam em quintuplicar esse número em 2050, segundo estudos da Sociedade Espanhola de Geriatria e Gerontologia. Segundo os últimos dados do Idescat (2007), a Catalunha tem cerca de 1.124 centenários. Deles, 207 são homens e 917 mulheres. Os municípios catalães com mais pessoas de 100 anos ou mais são Barcelona, Sabadell e l'Hospitalet. Ao todo, 333.310 pessoas na Catalunha têm mais de 80 anos. E cerca de 40 passaram dos 106.

O psiquiatra Jesús Fraiz, em seus estudos sobre centenários, destacou uma característica comum a todos: ter prolongado ao máximo a atividade profissional. Curiosamente, a maior parte desses espanhóis centenários, tendo superado uma guerra civil, conhece muito bem o que significa viver enganando a miséria.

Pelo consultório do neurologista Nolasc Acarín passaram muitos desses cidadãos que não atiraram a toalha. Ele mesmo aparece no filme "Bucareste, a Memória Perdida", com um cérebro de plástico na mão, explicando a doença degenerativa de Jordi Solé Tura (78 anos), e o cita Teresa Pámies (88) para elaborar seu "Informe al difunt" (La Campana), relembrando os últimos dias de Gregorio López Raimundo (falecido recentemente aos 93).

"Se não tivesse sido pelo meu trabalho, pela escrita, pelo rádio, não sei como teria superado dignamente esses momentos especialmente dolorosos", explica Teresa Pámies. Para ela a criação é imprescindível, "porque mostra que você pode ser um velho útil". Ela recomenda passear pelo bairro "e procurar outros como você. Afirmo que não falamos de nada banal e nossas conversas são muito mais estimulantes do que as que temos nas salas de espera dos hospitais". Teresa, que mora perto do mercado do Ninot, se despede assim: "Aos meus coetâneos: pratiquem a companhia dos jovens!"

Para Nolasc Acarín, especialista nos mistérios do cérebro, envelhecer é uma sorte se nos compararmos com os animais. "O ser humano é o único que envelhece. Os outros morrem quando acaba sua faculdade de se reproduzir." Em "Bucareste" aparecem lúcidas reflexões de homens que superaram a barreira dos 80, de Jorge Semprún (85) a Santiago Carrillo (93), passando por Antoni Tápies (85).

"Nosso cérebro funciona melhor se aprende, e aprende segundo nossa conduta", explicou Acarín. "Por isso deve existir a figura do professor, que costuma ser uma pessoa mais velha. Se não tivéssemos de aprender não haveria velhos. As mulheres envelhecem melhor porque não se aposentam." E acrescentou: "Em suas casas, programam, planejam, conduzem a logística, enquanto seus maridos, via de regra, se sentam para ver televisão."

"O que aprendi com a velhice? Que para sobreviver é preciso tentar se levantar cada dia com a maior dose possível de bom humor. Somos frágeis e ainda estamos em tempo de respeitar os outros, que também o são. Nem a irritação nem a inveja deveriam destruir nossas horas nem nossos dias", explica Josep Maria Espinás, que acredita mais na genética e na atitude do que na capacidade longeva do criador. "Picasso viveu muitos anos, mas meu amigo Riudavets viveu 113 e era sapateiro de ofício."

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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