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A Marcha Proibida por Samarone Lima
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Cidadania
Qui, 08 de Maio de 2008 07:52
No domingo, eu estava em Fortaleza, e perdi um evento que gostaria de participar – a marcha pela legalização da maconha. Lá não teve a passeata, a exemplo de diversas outras capitais do Brasil, onde vingou mesmo a proibição ridícula do direito de expressão. Pernambuco, com sua tradição libertária, permitiu a passeata. Pelo que sei, ninguém fez confusão ou foi preso por defender o que acha melhor para sua vida. Vários amigos meus devem ter participado. Deixando de lado meu tom cronista habitual, considero uma histeria policialesca e jurídica esse negócio de proibir uma passeata, e vejo como estamos a léguas de uma democracia de verdade. Como é que o sujeito, em pleno 2008, não pode ir a uma praça, levar um cartaz, e defender algo que julga importante? Vi uma imagem de um rapaz, no Rio de Janeiro, ser preso porque pendurou um cartaz no seu cachorro, pedindo a legalização. Os tiras, claro, ficaram espumando e levaram até o cachorro no camburão.

Creio que a droga deve ser descriminalizada, a exemplo do que acontece em um monte de países, como Suíça, Bélgica, Dinamarca, Espanha, Itália, Canadá, Austrália etc. Na Holanda, onde a turma é meio "liberou geral", o consumo é liberado e a venda livre para até cinco gramas. Na Austrália, o camarada pode cultivar até dois pés de maconha.

Mas não é porque outros países abrandaram a relação com a marijuana, que tenho esta postura. Penso assim porque vivemos no meio de uma violência brutal, e a repressão à maconha, o ódio policialesco a esta erva, no molde brasileiro, só faz piorar as coisas.

Já fui dono de dois bares da moda no Recife, professor de Universidade particular (e Católica), já morei num monte de lugares do Brasil, viajei uma penca de países, e para os que gostam de uma peneirinha para tapar o sol, vai um aviso - a humanidade fuma muita maconha. É uma pena ver um assunto tão importante, ser tratado com tanta histeria, com pólos opostos, muita fantasia e pouca sobriedade.
Ironias à parte, parece que todo mundo dá um pega, antes de discutir o tema.

Meus amigos em Salvador fumam pacas. Há professores, poetas, sociólogos, cineastas, produtores. Meus amigos em Brasília fumam muito. São professores, jornalistas, assessores, compositores. Meus amigos em São Paulo guardam no congelador, para nunca faltar. São artistas de teatro, dançarinos, escritores. Meus amigos no Recife adoram um baseado. São publicitários, gente de vídeo, de cultura, gente envolvida com cidadania, meio ambiente. Meus amigos no Rio têm a Cannabis Sativa de rodo. São editores, historiadores, professores, enfim. Tenho um monte de amigos que não fumam, mas bebem muito. Os que bebem muito fazem muito mais merda, e estão piores de saúde.

Nunca fui a um albergue, em nenhum país do mundo, que não rolassem maconha após cinco minutos de conversa. Nos bares que tive, no Recife, era comum ver uma mesa inteira sair, sem pagar a conta. O garçom não esquentava.

"Foram ali, dar uma bola".

Daqui a pouco voltavam. Tinham ido dar um famoso "pega". Uns, ficavam rindo de tudo, outros calados e distantes.

Só a cegueira mesmo para não ver que a juventude fuma muito, como bebe demais, e que não discutir o assunto é deixar o assunto nas mãos de quem menos entende, que é a polícia. O problema, creio, é que a palavra "maconha" dá medo na sociedade brasileira, e provoca ódio nos tiras. Os pais se pelam de medo de imaginar que o filho pode ter um baseado no bolso, enquanto a repressão adora pegar alguém de bobeira, para distribuir seu ódio formidável (que poderá ser resolvido mediante acertos financeiros ou pancadaria mesmo).

Vou dar uns exemplos simples de convivência com gente que consumiu ou consome maconha, em vários contextos:

Um amigo meu de São Paulo dividiu o apartamento comigo. Na época, fazia o Doutorado. Acordava, tomava banho, bebia um café, deitava na rede e dava uns pegas no seu fumo. Sentava à mesa, escrevia durantes várias horas sua tese, depois almoçava ao entardecer, e caminhava para o cinema. Depois, passou uns três anos sem fumar, voltou outro dia.

Um professor de uma das muitas escolas que trabalhei na vida, chegava com aquele cheiro básico de maconha, dava suas aulas numa boa e depois seguia para casa. Ele não bebia, ao contrário de vários outros amigos que tenho. Ele não bebia, ao contrário de vários outros amigos que tenho, que bebem rios, e brevemente terão problemas graves de saúde.

Na época em que fui dono de bar, minha preocupação era com os clientes que bebiam horrores, não com quem fumava seu baseado. Os bêbados queriam brigar ou saíam tropeçando, em direção ao carro ou moto. A galera que fumava gostava mais de rir ou ficar viajando.

Um ex-aluno meu, morador de um bairro muito pobre do Recife, fumava e saía para dar uma volta na praia de Boa Viagem. Depois sentava na areia, e ficava olhando as estrelas. A Polícia parava e dava um baculejo. Ele nunca foi pego com nada, mas os caras cheiravam suas mãos. Uma vez, tinha cheiro de maconha, o PM apagou seu cigarro nas mãos do rapaz. Meu ex-aluno e grande amigo era negro, claro.

A não ser que seja uma festa muito careta, a possibilidade de você ir a um aniversário de classe média, no Recife, e não rolar um ou vários baseados é quase nula (a não ser que a festa seja na casa dos pais). A turma fuma muito, mas é proibido. Todo mundo consegue comprar em todo canto, mas é proibido.

Não conheço uma pessoa de classe média que esteja no Cotel ou Aníbal Bruno por estar com umas trouxas de maconha. Se for pobre e for pego com umas trouxinhas, virará celebridade do crime nos programas policiais raivosos de Cardinot. Vá ao presidio feminino do Bompastor, e encontrará dezenas, talvez centenas de mulheres com vidas arrombadas porque foram pegas envolvidas com a maconha.

Em Cuba, se o cara for pego fumando, vai para a cadeia, passar oito anosinfernais. Não tem jeito, a turma fuma.

Os albergues de Buenos Aires deveriam criar chaminés, para a fumaça subir mais alto. No Uruguai fuma-se muito. Assisti uma partida no Estádio Nacional do Chile, e a torcida fumava verdadeiros charutos, sem que a polícia importunasse.

Na minha época de Casa de Estudante, da UFPE, havia maconha de rodo. Hoje tem gente no Tribunal de Contas, na Justiça Federal, em órgãos os mais diversos. Claro que teve gente que perdeu o rumo.
Os debates envolvendo o assunto são chatíssimos, porque ninguém conversa com
calma. Uns querem demonizar a erva, outros querem colocá-la num altar.

Nessas horas, penso mesmo é nos jovens que estão morrendo por causa disso. Os meninos que se envolvem no tráfico, e são pegos na moita pela polícia. Para esses, não tem debate nenhum, nem passeata - é pau e cana.

Somente nos três primeiros meses do ano, na região metropolitana de Salvador, morreram assassinadas mais de 560 pessoas, grande parte jovens. Não tenham dúvida: muitas foram fuziladas por conta do tráfico.
Em Pernambuco, 1.587 pessoas foram assassinadas, de 1º de janeiro até hoje. A maconha, infelizmente, está por trás de muitas dessas mortes.
No Jornal do Comercio desta terça-feira, 6 de maio, um exemplo do horror:

"Por não quitar uma dívida de R$ 20,00 com traficantes do bairro da Várzea, Zona Oeste do Recife, Cleiton Alves dos Santos, 21 anos, foi executado a tiros na tarde do último sábado".

Uma vida por vinte reais. E a turma se recusa a discutir o assunto.

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