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Pecar Empobrece? Por Rilton Primo*
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Qua, 11 de Janeiro de 2017 04:01

Rilton_Primo_2Uma anedota de um trabalhismo preconceituoso, de um produtivismo eugênico e rasa hipocrisia elitista tem circulado nas redes sociais e seria indigna deata crítica se não estivesse mobilizando em campanha nacional  inclusive médias, boas e excelentes cabeças (conforme sejam capazes de estacar ante círculos viciosos, atacar proposições contraditórias e desprezar  paralogismos interessantes).

Avessa a risos, embora os arrancasse na sua versão original, a facécia fez-se aula de ciência política, moral e cívica que pretende explicar, sem gracejos, as nove razões pelas quais existem nações (e/ou classes) ricas e pobres, suplantando as ciências econômicas, políticas, geográficas, tecnoecológicas, geodésicas, agronômicas, históricas,  irrelevantes.

Sua tese inferior é a de que o subdesenvolvimento e o desenvolvimento independem da idade da nação, apresar de a histórica econômica geral ser um dilúvio de evidências desta correlação, pela qual o velho mundo e no novo converteram-se nas atuais nações centrais e periféricas etc. A tese superior é culpar tais nações pela rapacidade daquelas, acusando-as de nove pecados originais, quiçá uma nova versão de uma antiga anedota:

1. Ética, como princípio básico.

2. Integridade.

3. Responsabilidade.

4. O respeito pela legislação e regulamentação.

5. O respeito da maioria dos cidadãos pelo direito.

6. O amor ao trabalho.

7. O esforço para poupar e investir.

8. A vontade de ser produtivo.

9. A pontualidade.

Conclui que nações (classes) ricas seguem o eneálogo na prática, as pobres na parole. Cita a Índia e o Egito como nações antigas, não ricas; Canadá e Austrália como novas, mas ricas. Complementarmente, diz que a riqueza das nações independe de recursos naturais e terra fértil. Cita o Japão e a Suíça como nações minúsculas e inférteis do primeiro escalão financeiro global. Não explicou como se enriquece, sendo escravizado. Tampouco explicou como se progride, sendo colonizado; como se produz, sem insumos. Não apontou qualquer nação central sem crime organizado endemico e/ou exógeno, sem tribunais parciais, sem histórico de guerras, demagogias religiosas e servidões. Não explicou como as vantagens comparativo-competitivas são superadas com moralismos trabalhistas.

Supõe que inexistem diferenças de raciocínio entre executivos de países ricos e pobres. Supõe que trabalhadores imigrantes de países pobres que, por etnia, seriam fortemente preguiçosos em seus míseros países de origem, tornar-se-iam forçosamente produtivos em países ricos como os da Europa, já que, segundo sua doutrinação nas redes sociais, nos países pobres apenas uma pequena minoria seguiria o eneálogo em sua vida diária.

Não somos pobres porque nos falta recursos naturais ou porque a natureza foi cruel conosco. Somos pobres porque nos falta atitude. Falta-nos vontade de seguir e ensinar esses princípios de funcionamento das sociedades ricas e desenvolvidas. Estamos neste estado porque queremos levar vantagem sobre tudo e todos.

Mas quem disse que a natureza não foi generosa com as ex-colônias, até hoje cobiçadas por riquezas e força laboral? Os processos de colonização e neocolonização, deterioração dos termos de troca dos bens e serviços importados/exportados e das relações de hegemonia e dependência centro-periferia, endividamento artificial, monopólios tecnológicos, cartéis científicos, aí desaparecem em nome de um discurso enealógico que tenta rebaixar ainda mais o moral dos vilipendiados.

Piada do sabão. O escravo apanha para comer uma Barra de sabão ou tentar erguer um peso superior ao que sua compleição física suportaria; depois apanha, por deixar o peso cair ou para aprender que sabão não se come.

Há um século nada era mais ridícula  e extravagante que a hipótese de que os habitantes dos países subdesenvolvidos seriam menos éticos que os dos ricos, exceto a de que aqueles seriam mais éticos que os dos países mais pobres que eles, até o último, onde unir-se-iam as almas mais pervertidas às miserandas.

Nada mais digno de galhofa? Mentira. Há algo realmente insuperável: a hipótese de que países ricos tenham pessoas mais produtivas, no sentido de trabalharem mais, pouparem e investirem mais. Na prática ou na teoria é o contrário. Nos países pobres trabalha-se muito mais, precisamente porque os investimentos que poupam horas e brio de trabalho e capital, mantendo o patamar salarial e as demmais rendas, não são feitos nos subdesenvolvidos, como os em tecnologias de ponta e os em processos pós-industriais em geral, mas fora.

Pedem que divulguemos esta insípida negação das ciências das trocas desiguais entre os que, ipso facto, acabaram ficando mais ricos e outros mais pobres, trocas feitas, em geral, via violência colonial e depois via repressões militares e policiais neocoloniais etc. Hoje, via os mass media.

É velhaco o mito de que o rico tem mais ética e valores civis que o pobre. Recalcula-se todos os anos que são as elites as que mais roubam e fraudam e repete-se que são elas as que, supostamente, menos precisariam fazê-lo, precisamente por já terem muito capital. Suposição hilária, pois as necessidades artificiais, da ganância e do poder corrompem mais o ser humano, porque insaciáveis, do que a própria fome, que tem gerado gigantes estóicos em todos os séculos. Assim, a sonegação no Brasil vem sendo sete vezes maior que toda a corrupção junta e os furtos e roubos de bens e valores fração irrisória desta. O perfil mais ilibado e prestimoso, menos especula e, na ciranda dos lobos, termina sendo o que menos embolsa. Querem inverter isto e acusar os Diógenes da lassidão dos Neros.

Tem-se então reunidos aqui, como no passado, os elementos para uma anedota, que desempenhou na ciência do capital inicial aproximadamente o mesmo papel que o pecado original na teologia, lembra-nos o Cap. XXIV de O Capital de Marx: A lenda do pecado original teológico conta-nos, certamente, como o homem foi condenado a comer o seu pão no suor do seu rosto; a história do pecado original econômico [aqui travestida de um eneálogo], porém, revela-nos como é que há pessoas que não precisam fazê-lo.

Chegamos então ao ponto onde tudo começou, antes do qual não havia nações nem classes ricas, sobre terras relativamente estéreis, ermas, estreitas;  parasitárias e financeirizadas, face às  pobres, populosas, férteis e laboriosas:

Adão deu uma dentada na maçã, e deste modo o pecado desceu sobre o gênero humano. A origem daquele é explicada ao ser contada como anedota do passado. Num tempo remoto havia, de um lado, uma elite diligente, inteligente, e sobretudo frugal, e do outro uma escumalha preguiçosa, que dissipava tudo o que tinha e mais. [...]. Mas é indiferente. Assim aconteceu que os primeiros acumularam riqueza e os segundos, por fim, nada tinham para vender a não ser a sua própria pele. E deste pecado original datam a pobreza da grande massa, a qual continua, a despeito de todo o trabalho, a não ter nada para vender a não ser a si própria, e a riqueza de uns poucos, a qual cresce continuamente, embora eles há muito tenham deixado de trabalhar. Esta chocha história para crianças conta-a ainda, p. ex., o senhor Thiers, com o ar sério das solenidades de Estado, aos Franceses outrora de espírito tão vivo, em defesa da propriété. Mas assim que a questão da propriedade está em jogo, torna-se dever sagrado manter o ponto de vista da cartilha infantil como o único justo para todas as classes etárias e etapas de desenvolvimento. Na história real é sabido que a conquista, a subjugação, o assassínio para roubar, numa palavra, a violência [Gewalt], desempenham o grande papel. Na suave economia política [como naquele eneálogo, seu excremento] reina desde sempre o idílio. Direito e «trabalho» foram desde sempre os únicos meios de enriquecimento, naturalmente com a exceção, todas as vezes repetida, de «este ano». De fato, os métodos da acumulação original [que liberou ativos para a formação do capital inicial] são tudo o que se quiser, só não são idílicos.

Os povos aparentemente luxentos (pois na maioria dos casos são apenas ostentadores que têm também suas classes média, pobre e excluída) são os que mais promovem mortes e sofrimentos. Promovem guerras e conflitos ao redor do mundo ao longo dos tempos e são escravizadores, pilhadores, invasores, saqueadores e tratantes hábeis. Para melhor executarem fraudes, lançam fumos. Roma deve menos a exércitos que ao Coliseu.

Para que melhor exemplo desta bufonaria rapaz que os próprios EUA? Não menos que 12 (doze) milhões de crianças muito abaixo da linha da pobreza; a maior população carcerária do mundo; o país mais belicoso; o maior aparato midiático, de TIC e redes sociais, subvertendo as éticas humanas nos receituários das elites em sucessão.

As multinacionais pagam pelos mesmos serviços de engenharia salário bem diferente nos seus países e nos países pobres.

Os economistas explicam que eles são pobres porque não investem, e que nao investem porque são pobres e Vi o tais não poupam para poder investir; resumindo, pobres, porque pobres. Anedota patronal.

*Consultor em Ciências Sociais Aplicadas do Centro de Estudios por la Amistad de Latinoamérica, Ásia e África - CEALA.

 

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