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Somos aliens dentro do Planeta. Por Sebastião Salgado
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Meio Ambiente & Sustentabilidade
Ter, 07 de Abril de 2020 05:31
Consagrado por fotografar de tragédias a lugares intocados, Sebastião Salgado analisa pandemia: 'Somos aliens dentro do planeta'

Repórter fotográfico acostumado a cruzar um mundo em conflito ao longo da carreira, brasileiro que está recolhido em Paris fala da esperança em uma mudança global de valoresk

Fernando Eichenberg, Especial para O GLOBO, de Paris

Habituado a rodar o planeta retratando as maiores tragédias humanas (entre guerras, êxodos ou a fome) e os mais belos e intocados cenários (em expedições para o projeto "Gênesis"), o fotógrafo Sebastião Salgado encontra-se hoje, como grande parte da população mundial, confinado em casa.

Recolhido em seu apartamento parisiense, ao lado da mulher e parceira de trabalho, Lélia, e do filho Rodrigo, ele segue à risca as regras da quarentena estabelecidas pelo governo francês. E passa boa parte dos dias editando as imagens do projeto a que se dedicou nos últimos sete anos: fotografar a Amazônia. O material será tema da próxima grande exposição que fará, a partir de abril de 2021.

Dizendo ter sentido "uma espécie de vazio na alma", Salgado defende que o homem chegou ao limite em sua relação com a natureza e explica por que crê que a pandemia mudará os valores no mundo:

— Só nas grandes catástrofes surgem as grandes solidariedades e reais preocupações com o futuro da Humanidade. Isso é o que teremos de fazer agora.

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Como você está vivendo este período de isolamento?

Comecei dois dias antes do início oficial do confinamento na França (em 17/03). A Lélia tem uma deficiência respiratória hereditária, e temos muito medo. É um vírus que ataca o sistema respiratório, e ela é um caso de ultrarrisco. Tive uma sensação muito rara no dia do confinamento oficial, na terça-feira, quando a partir do meio-dia tudo fecharia. Já tinha vivido aquele momento antes. Senti o mesmo várias vezes em reportagens fotográficas em zonas de guerra, onde haveria um ataque massivo, com bombardeamento e muitos mortos. Não se sabia quem iria morrer. Poderia ser você, alguém ao lado, uma outra pessoa. Era aleatório. É uma sensação tão singular, de que a vida continua e algo grave vai se passar. Lembro uma vez na Irlanda, estava com o exército inglês em Armagh County, e se sabia que no dia seguinte haveria um ataque de morteiros de parte do IRA. Senti muito isso durante a guerra em Angola, na época da independência, em que o exército sul-africano e os movimentos contra a MPLA iam atacar Luanda. Também na Bósnia, em alguns campos de refugiados, em que se sabia que haveria um bombardeamento no dia seguinte, o que realmente ocorreu. E foi esta a sensação naquela terça-feira pela manhã, senti o que vivi outras vezes em outros momentos de minha vida. É uma espécie de vazio na alma. Vai ser grave, mas para quem? Poderá ser para mim, minha mulher, meus filhos. Não se sabe onde a bomba vai cair. O presidente Emmanuel Macron fez o anúncio na segunda-feira à noite, e no dia seguinte a França parou. E realmente parou. Tive de ir no escritório para preparar as últimas coisas, e quando saí, pelas 15h, no caminho de casa, Paris era uma cidade completamente paralisada. Foi uma sensação estranha, pela primeira vez uma cidade destas totalmente parada.

Você tem saído à rua nesta quarentena?

Eu que faço as compras, protejo ao máximo a Lélia. Modificamos um pouco o hábito alimentar. Compramos a alimentação de base e congelamos. E uma quitanda aqui perto nos entrega frutas e legumes em casa. Tanto eu como a Lélia somos grupos de risco, ela tem 73 anos, e eu, 76. Fazer o quê? Hoje é também algo particular sentir a eliminação dos mais velhos na hora do tratamento. Na Itália, começou com pessoas acima de 85 anos, depois passou para 80, e hoje baixou para 65. A partir daí, deixa morrer, privilegia o atendimento aos mais novos. É uma sensação estranha também por este lado, saber que você faz parte de um grupo que será excluído se a enfermidade radicalizar.

São Paulo pela lente de Sebastião Salgado em 1996: "Esta imagem mostra uma cidade sem seres humanos, com uma nuvem negra que a ameaça. Representa também, para mim, uma interrogação do coronavírus", afirma o fotógrafo Foto: Sebastião Salgado / Divulgação

Você fotografou as maiores aglomerações humanas e paisagens intocadas. Qual seu sentimento ao ver, hoje, o mundo parado?

Tenho a impressão de que estamos vivendo um ponto de inflexão. Daqui para frente, certamente será uma outra coisa. Acredito que haverá uma preocupação muito maior com a natureza e com o planeta. Nossa sociedade foi se dirigindo cada vez mais para a superficialidade. Veja o que é o Produto Interno Bruto (PIB) dos países ricos. Quando se anda na rua, se nota a enorme quantidade de lojas de roupas e de alimentação sofisticadas, e de tantas coisas que, se cessarem, não mudará nada para a sociedade, porque nada disso é essencial. Fomos na direção de uma composição do PIB feita de superficialidades, de sofisticações desnecessárias. Quanto mais se é rico, mais se torna consumidor de coisas superficiais, que têm, cada uma delas, um preço para o planeta, por sua marca de carbono, de matérias-primas, de minerais, de petróleo. O conceito de essencial para nós foi mudando. Estamos muito perto da própria morte ou da morte de nossos próximos para dar valor à superficialidade. Penso que com que o agravamento desta epidemia, muitos valores vão mudar na sociedade. Voltaremos a um conceito de essencial, de proteger a natureza, de realmente produzir pelo bem-estar do ser humano, e não por seu egoísmo e por outros valores que foram sendo impostos por todo um sistema. A razão de viver é viver, é o bem-estar.

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Que exemplo daria sobre esta volta ao essencial?

A França tinha um sistema hospitalar incrível até a modificação deste conceito de rentabilidade na economia. O Estado passou a ter de pensar em termos de rentabilidade, quando, na realidade, as suas despesas são gastos sociais, para o bem-estar de seu cidadão. Em uma economia como a brasileira hoje, só se pensa no lucro das empresas. O bem-estar dos trabalhadores e da grande maioria da população não interessa. Interessa é o conceito de rentabilidade aplicado às finanças pública de uma nação, o que não pode funcionar. O presidente francês, Emmanuel Macron, declarou que vai investir nos hospitais. Se quer recriar um sistema hospitalar para assistir novamente a população. Penso que isso vai acontecer um pouco em todas as partes do planeta. Vamos ter de voltar a pensar em nossa produção de riqueza para o bem-estar da humanidade, e não para o lucro, a superficialidade e a acumulação de riquezas de um pequeno grupo. O Estado vai ter de começar a funcionar seriamente como Estado, voltado para o povo, para as questões mais essenciais. Veja o que está ocorrendo hoje nos Estados Unidos. O ex-presidente Barack Obama fez de tudo para se ter um sistema de saúde para todos os americanos. E hoje isso faz uma falta imensa no país, um sistema de saúde realmente público. Hoje, se vai ter nos EUA uma assistência para uma classe mais alta que pode pagar. Será que o Estado americano terá condições de assistir à população que não pode fazê-lo? Duvido, porque leva anos para se investir na criação desta infraestrutura. Não é porque se vai colocar trilhões de dólares na economia que se vai resolver este problema. Nos países nórdicos, na Alemanha, há uma preocupação econômica séria com os cidadãos. Na Itália, houve uma brutal negligência com o sistema de saúde, e se está pagando caro por isso agora.

Aglomerações antes da pandemia: registro de Sebastião Salgado de uma estação de trem em Mumbai, em 1995 Foto: Sebastião Salgado / DivulgaçãoAglomerações antes da pandemia: registro de Sebastião Salgado de uma estação de trem em Mumbai, em 1995 Foto: Sebastião Salgado / Divulgação

Cientistas e ecologistas dizem que esta pandemia seria um ultimato da natureza. Você concorda?

São muitos níveis de pandemia, e elas nunca foram tão frequentes. O Ebola ocorreu não faz muito tempo (2014), e houve o outro coronavírus (SRAS-CoV, 2002). Este grande desequilíbrio que criamos da natureza está vazando para nós, a espécie dominadora que ocupou todo o espaço. Mas estão ocorrendo também catástrofes naturais. Há esta quantidade de ciclones que vemos em determinadas regiões do mundo, com uma violência extrema. Isso está totalmente ligado à supressão dos amortecedores da natureza. A destruição da Floresta Amazônica, hoje, vai levar a uma catástrofe planetária. Olhe a destruição que foi feita no ano passado, para dar satisfação ao agronegócio brasileiro, que na realidade nem precisa destas terras. É o maior agronegócio do mundo, mas a ganância é tão grande, que este presidente eleito incentivou a penetração por meio das propriedades limítrofes com a floresta. Chegamos no limite. Não se trata de voltar a viver em cavernas ou na floresta, mas, pelo menos espiritualmente, teremos de reconectar com o planeta, para protegê-lo e recuperar boa parte do que já destruímos. Veja o que ocorreu em Minas Gerais nestes últimos anos, com rompimento de barragem. A Vale do Rio Doce era uma empresa do Estado, social, que tinha ligação com todas as municipalidades da região. A partir de sua privatização, começou a entrar em uma espiral de lucro para os acionários, ao ponto que não há mais segurança nas barragens, polui. Só interessa o lucro, o resto da população que se lixe. Isso terá de parar e mudar. Veja o que está acontecendo no Brasil, hoje, com a epidemia. Os municípios e os estados estão reagindo, enquanto um governo federal, que deveria coordenar e liderar a proteção da população, está procurando liderar a proteção do lucro. Estes erros serão rejeitados. É preciso uma unidade de coordenação de movimentos, porque são centenas de milhares de vidas ameaçadas, e que estão começando a ser executadas. Está na hora de ter um comportamento realmente nacional, humano, cidadão, e não um divisionismo, com um poder federal que tenta destruir o que os poderes locais, que estão mais perto da população, estão fazendo para salvar vidas. Até nos EUA, o presidente Donald Trump voltou atrás, e hoje já não fala mais em reabrir logo a economia americana. E está liberando recursos e fazendo tudo pelos cidadãos americanos. Ele compreendeu. Ao passo que no Brasil, nosso governo federal ainda não compreendeu.

"Está na hora de ter um comportamento realmente nacional, humano, cidadão, e não um divisionismo"

Sebastião Salgado

Fotógrafo

A globalização irá mudar?

Vamos ter de voltar ao planeta, à natureza, às outras espécies. Por que estamos sendo atacados assim? Porque é muito fácil. O ser humano saiu do planeta. Os países são formados por enormes concentrações urbanas, e hoje uma catástrofe atinge todo o mundo quase imediatamente. Somos aliens dentro do nosso próprio planeta. Quem somos nós? Qual nossa relação com a natureza? Temos de nos preparar para nos entendermos melhor entre nós. Pacificar. Por que a França não investe mais nos hospitais? Porque existe um sistema militar que consome tudo. Um caça de combate completamente equipado custa em torno de € 200 milhões. A Índia comprou dezenas deles recentemente. É um dinheiro estéril que se está gastando neste sistema de armamento, porque uma nação se equipa, e daqui a 20 ou 30 anos tudo o que comprou já está obsoleto. Grande parte dos recursos entra nisso. Nas festas de Halloween, as pessoas compram um monte de coisas, e no dia seguinte está tudo no lixo. Só nas grandes catástrofes que surgem as grandes solidariedades e reais preocupações com o futuro da humanidade. Isso é o que teremos de fazer agora.

Como será a sua exposição sobre a Amazônia?

A exposição está prevista para inaugurar em abril do ano que vem, simultaneamente aqui em Paris, no Rio (no Museu do Amanhã), em São Paulo e em Roma. Trabalhei com 12 comunidades indígenas, fiz uma quantidade de fotografias viajando em rios na Amazônia e também muitas imagens aéreas. Tive um grande apoio do Exército brasileiro. Aceitaram que voasse com eles, e quando era preciso sair de suas rotas, eu pagava o combustível. Morei em bases do Exército dentro da Amazônia. A Aeronáutica também me ajudou. Pude fotografar coisas que não se conhece. A Amazônia tem um sistema de montanhas maior do que os Alpes. Todo mundo conhece da Amazônia uma grande planície repleta de árvores com um grande rio passando no meio. Mas temos montanhas e cachoeiras incríveis. A exposição será o conjunto disso tudo. Temos uma série de testemunhos de grandes chefes indígenas, e o vídeo deles também será exibido. Haverá ainda um lado musical, com um grande concerto do repertório do Villa-Lobos para a Amazônia, com projeções de fotografias, para 2,5 mil pessoas aqui em Paris, e orquestra regida pela brasileira Simone Menezes. O Philip Glass compôs uma peça musical para seis ou sete rios. Estamos trabalhando também com o Jean-Michel Jarre, que está compondo sons das árvores, dos rios, dos pássaros, o que será o fundo sonoro da exposição, para se entrar realmente dentro da floresta. O grupo Pau Brasil está também compondo músicas. Será uma exposição musical. E com a parte prístina, pura, da Amazônia, correspondente a 81%. Nós destruímos em torno de 19% da floresta. E é uma exposição exclusivamente sobre a Amazônia brasileira. O título será "Amazônia", com o acento circunflexo. Não vou mostrar destruição, mas a Amazônia que precisamos preservar.

Você viu também muita destruição?

Vi. Corta o coração quando se voa em Rondônia e se observa que grandes porções da floresta foram destruídas de forma brutal. Em Roraima, quando se sai de Boa Vista, viajando para dentro do território indígena, se vê a quantidade de floresta que foi destruída. E, hoje, todas as propriedades rurais que foram fixadas ali viraram campos de areia. Aquela floresta milenar que estava ali, de um valor enorme, foi abatida, e as propriedades hoje estão abandonadas.

A pedido, você escolheu duas fotos (ambas ao longo deste texto) com alguma relação com este momento que estamos vivendo. Por que estas imagens?

Elas são, para mim, fotos yin e yang. Uma delas, com milhares de pessoas saindo de trens na estação Churchgate, em Mumbai. A chegada, com milhares de pessoas saindo dos vagões, representa a vida, a aglomeração, a aproximação, tudo o que o coronavírus, hoje, nos nega. É uma imagem proibida. E a foto de São Paulo mostra uma cidade sem seres humanos, com uma nuvem negra que a ameaça. Representa também, para mim, uma interrogação do coronavírus.

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